JOSÉ BEZERRIL FONTENELE: DA SERRA DE VIÇOSA AO PANTEÃO DA REPÚBLICA:

JOSÉ FREIRE BEZERRIL FONTENELE nasceu em 8 de março de 1850, na antiga e altiva cidade de Viçosa do Ceará, entre as serras da Ibiapaba, berço de tradições familiares e intelectuais. Homem público de projeção na primeira fase do regime republicano, no Estado que lhe serviu de berço. Filho do professor primário José Freire de Bezerril e de Maria d’a Assunção Fontenele, deveria ter-se assinado José Fontenelle Freire de Bezerril, ou Fontenelle Bezerril, conforme nós os brasileiros costumamos organizar nossos cognomes ou patronímicos.
Desde cedo foi envolvido pelos valores do estudo e da perseverança, herdados tanto do pai, educador respeitado, quanto da mãe, mulher de raízes profundas em famílias de prestígio local.
José Freire Bezerril faleceu na cidade de Fortaleza a 29 de setembro de 1878 e sua mulher Maria d’Assunção Fontenele Bezerril faleceu de Bexiga a 19 de novembro de 1878, em Fortaleza. Eram proprietários de sete (7) casinhas na rua do Garrote, local cidade das crianças.

Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção de Viçosa do Ceará.
Foi batizado dois meses após o nascimento, em 19 de maio daquele mesmo ano, na histórica Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção, sob as bênçãos de dois padrinhos significativos: o Dr. Quirino Rodrigues da Cunha e sua avó materna, Maria dos Anjos Portela. Seu sangue carregava a herança dos Fontenele e dos Bezerril: neto paterno de Veríssimo Freire de Revoredo e Rosa de Bezerril, ambos oriundos do Rio Grande do Norte, e neto materno de Felipe Benício Fontenele e da própria Maria dos Anjos Portela. No lado materno, descende ainda de Jean Fontenele e Umbelina Maria de Jesus, figuras que ajudaram a consolidar a linhagem de uma família influente na região.
SONHOS ENTRE PEDRAS E LIVROS: A JUVENTUDE DE BEZERRIL FONTENELE
A infância de José Freire foi marcada por mudanças e adaptações. Adolescente, acompanhou os pais na mudança para a vila de Messejana, onde teve início sua alfabetização formal. A seguir, fixou-se em Fortaleza, onde a família — já aposentada da vida pública — estabeleceu-se no sítio conhecido como Lagoa do Garrote, cenário que acolheu os seus primeiros sonhos acadêmicos.
Na capital cearense, ingressou no prestigiado Liceu do Ceará, com a meta de cursar Farmácia — ciência que à época exigia tanto domínio técnico quanto acesso a livros caros e escassos. Diante das dificuldades financeiras, o jovem José precisou aliar o estudo ao trabalho duro: sustentava-se com o que ganhava como operário e ajudante de ourives, ofícios humildes que contrastavam com sua nobre aspiração pelo conhecimento, para adquirir os livros necessários aos estudos.
O Marechal, sem dúvida, foi o inspirador dessa edificante confissão de humildade, que faz lembrar um outro aprendiz de tipógrafo, Benjamin Franklin. Porque são assim os grandes homens: não correm de suas origens menos nobres, que elas, na verdade, é que lhes dão a exata medida das gigantescas proporções atingidas.
Pelo ramo Fontenelle, trazia nas veias boa porcentagem de sangue gaulés, herdada do bisavô materno, o engenheiro de minas Jean Fontenelle, tronco de todos os Fontenelles do Brasil; enquanto do lado do pai e mestre escola José Freire de Bezerril, era basco; provinha da raça forte e tenaz ainda hoje habitante de Navarra, do nordeste de Gulpuzcua, do Aragão e adjacências, cuja impermeabilidade inexpugnável a vem segregando racial e linguística de todos invasores da península ibérica.
“Becerril, registra o Dicionário de la Académica Espanôla, es adjetivo pertenciente al becerro I becerra se decuce del vasco bela vaca e cecorra ternera.” Bezerril com é aberto na primeira sílaba e z na segunda, é como se deve grafar. E não Biserril ou BIzerril, tal se lê numa placa de uma das ruas de Fortaleza. “Na estrutura bio-psicológica do marechal Bezerril Fontenelle, dá-se o encontro de ondas étnicas em entrechoque: a harmonia e clareza do gênio francês com a tenacidade impertérrita do basco. Isto explica, em parte, porque as virtudes plácidas exercidas no lar, êle tivesse sempre aliado atitudes tão corajosas e retas, que o recomendaram a coevos e pósteros como homem público sem jaça; Explica só m parte, porque José Freire Bezerril Fontenelle foi sobretudo um produto de sua vontade forte.” (CORREIO DA MANHÃ, 1950, Nº 17477, Pág. 5).
Menino pobre, projetou-se no mundo, desajudado de tudo, até atingir, por si só, todas as posições consulares. Que admirável professor de energia não foi; e continua sendo, porque sua presença é eterna.
DISCIPLINA E IDEAIS: A FORMAÇÃO DO ESTADISTA REPUBLICANO:

Assentou Praça com destino a Escola Militar da Paia Vermelha do Rio de Janeiro em 1871, terminando curso em 1878, graduando-se em engenharia militar. Aluno da Escola Militar, bacharelou-se em Ciências Físicas e Matemáticas a 26 de dezembro de 1874. Segundo Tenente a 31 de março de 1877. Por decreto de 29 de julho de 1877 foi promovido a 1º tenente da arma; Capitão a 17 de setembro de 1879.
Em 1879 foi nomeado lente da Escola Militar do Ceará, e, dez anos depois, proclamava a república; ocupou o cargo de encarregado dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, no governo de Luiz Antônio Ferraz.
Com o advento da República, José Freire Bezerril Fontenele revelou não apenas seu espírito reformador, mas também a firmeza de um caráter moldado na disciplina e na justiça. Ainda nos primeiros dias do novo regime, tomou parte ativa, ao lado de companheiros de ideais, na deposição do último presidente da província sob o Império, o coronel Jerônimo Rodrigues de Moraes Jardim. O entusiasmo cívico da sociedade cearense já reconhecia em Bezerril um ardente republicano, cujas qualidades morais e políticas o tornavam naturalmente apto a compor o governo provisório que então se formava sob a liderança do coronel Luiz Antônio Ferraz, comandante do 11º Batalhão de Infantaria.
Mercê de seu elevado mérito, conquistou os galões de Major, a 7 de janeiro de 1890 e as de Tenente-Coronel a 12 de janeiro de 1892.
Amigo de Floriano Peixoto, em fevereiro de 1892, após a deposição do general Clarindo de Queiroz, assumiu interinamente o governo do Estado, para o qual, em agosto do mesmo ano foi eleito mantendo-se no posto até 1896, tendo feito uma administração de rigorosa economia, executando várias obras.
“Estado do Ceará – Palácio do Governo, em 17 de fevereiro de 1892″ – Considerando que o bombardeamento que dura ha treze horas, tem damnificado em grande parte o palacio do Governo e provavelmente muitos predios particulares e dado causa a derramamento de sangue, acontecimento gravissima e tanto mais deploravel quando não foi procedido de aviso; Considerando que deante aggressão tão descommunal não posso continuar no cargo para o qual fui legalmente eleito, que exercia sómente no intuito de servir bem à patria e à minha terra natal, resolvi, sob protesto, deixar o governo do Estado entregando-o ao commandante da Guarnição, unica autoridade em que reconheço na conjuctura actual, a força precisa para manter a ordem. Em manifesto, que opportunamente será publicado, darei conta ao paiz do meu procedimento e dos acontecimentos a que acabo de alludir. Do general de Divisão José Clarindo de Queiroz.”
“A Posse – O tenente-coronel Bizerril assumiu então a administração do Estado, tomando promptas medidas para restabelecimento da ordem, fazendo reunir no edificio da Escola as praças do Corpo de segurança e Guarda Civica que andavam foragidas e os musicos, sendo os quarteis destes corpos guarnecidos por forças do mar e terra. As praças de policia e guardas civicas que foram encontrados nos quarteis e que comparecerem depois foram conduzidos à Escola por um pelotão de alumnos. Os policiaes e guardas detidos na Escola foram, poucas horas depois postos em liberdade e encarregados do policiamento da cidade.” (JoRNAL DO CEARÁ)
Foi o comandante da região militar de Recife, substituindo Artur Oscar que seguira para chefiar a expedição contra Canudos.
Foi nomeado Coronel, a 9 de março de 1894, ano em que efetuou uma excursão presidencial por todo o Estado, cujo governo deixou a 12 de julho de 1896, deixando no cofres do Tesouro, saldo superior a três mil contos e resolvido todos os seus compromissos.
“O DR. JOSÉ FREIRE BEZERRIL FONTENELLE conquistou-a com os foraes do seu caracter tenaz e da sua probidade immaculada. Deixou o governo penoso da terra que lhe foi berço como entrou para elle com o respeito das consciencias limpas e admiração dos corações honrados. Serviu à República na paz do seu governo, como vae servil-a agora na actividade de seu posto de coronel do Exército, com lealdade e coragem, com a convicção sincera e ardente de patriota republicano. Ao recolher-se a lar o faz com o contentamento de uma consciencia sã, levando com os louros colhidos na pacifica contenda as bençãos do Ceará, para quem elle fez o que lhe ditou o dever e a honra – 15 de julho de 1896 – Raymundo Belfort Teixeira.” (O REPUBLICANO, FORTLEZA, 25 DE JULHO DE 1896).
Bezerril foi então nomeado Secretário da Agricultura, Indústria, Viação e Obras Públicas, função em que imprimiu firmeza administrativa e zelo pelos interesses públicos. Sua carreira política, porém, não pararia por aí. Alistado por Quintino Bocaiúva na circunscrição da Lagoa, no então Distrito Federal, ganhou projeção nacional e foi eleito membro da Assembleia Constituinte de 1891, ao lado de vultos como Joaquim Catunda, Justiniano de Serpa, Manoel Bezerra, João Lopes e Pedro Borges. Participou ativamente da formulação da nova ordem republicana, somando-se aos debates e à construção de um Brasil que buscava se reinventar.
NÚPCIAS E MISSÃO: BEZERRIL, O EDUCADOR MILITAR
No Pará casou-se com dona Maria Joaquina da Silva Paranhos a 10 de janeiro de 1885, sobrinha do Visconde do Rio Branco, filha do Capitão Caetano da Silva Paranhos e de Joaquina Rosa da Silva Paranhos. Nomeado Professor da Escola Militar do Ceará, transferiu-se de Belém com sua família em companhia de sua esposa, dois filhos e quatro irmãos. Desta união nasceram os seguintes filhos:
GOVERNAR COM HONRA: A LIDERANÇA DE BEZERRIL NO CEARÁ E NO EXÉRCITO
No turbulento ano de 1892, foi incumbido pelo vice-presidente Floriano Peixoto de chefiar a Escola Militar do Ceará e comandar a guarnição local durante a deposição do presidente estadual, José Clarindo de Queirós. Demonstrando mais uma vez seu senso de dever e espírito público, conduziu a transição com ordem, entregando o cargo no dia seguinte ao major Benjamin Liberato Barroso. Pouco depois, foi eleito Presidente do Estado do Ceará, tomando posse em 27 de agosto de 1892, para um mandato que se estenderia até 12 de julho de 1896.
“Ceará, 17 – Foi hoje deposto por um movimento popular o governador deste estado, general José Clarindo de Queiroz. Houve resistência da parte dos partidarios do governador, que se alojaram em palacio, sendo este bombardeado. Assumiu o governo do estado provisoriamente o Dr. José Freire Bezerril Fontenelle, deputado ao congresso nacional. Após os sucessos, que se deram rapidamente, a cidade voltou ao socego habitual” (O TEMPO/RJ, 1892, N.º 267, Pág. 4).
À frente do governo cearense, Bezerril protagonizou uma administração marcada por seriedade, obras e equilíbrio fiscal. Sob sua gestão, viabilizou, com o apoio do deputado federal José Bevilaqua — também viçosense —, a extensão da rede telegráfica até sua terra natal, cuja inauguração ocorreu em 25 de março de 1895. Embora não tenha conseguido concretizar a sonhada estrada de ferro ligando Granja a Viçosa, por conta da perda do privilégio de construção pela firma Boris Fréres, investiu em estudos para o açude público de Lavras, demonstrando sensibilidade para com as demandas hídricas do sertão.
“No dia 12 do corrente deixou a administração d’este Estado o exmo. Sr. Coronel JOSÉ FREIRE BEZERRIL FONTENELLE. Conscienciosamente fallando, não podemos deixar de confessar que a administração finda foi muito prospera para o Ceará, que teve na pessôa de s. ex. um esforçado trabalhador para eu engrandecimento moral e material. De uma economia louvável, só consentio no gasto das rendas publicas com o que julgou necessario ou proveitoso ao melhoramento de sua terra natal. De modo que poucos Estados do sul e norte da República contam em seus cofres sommas iguaes as que os nossos possuem. E para tanto não foi preciso garrotear o commercio, a industria e a lavoura. Ainda mais: Éscrupuluoso na escolha de pessoal para auxilial-o na administração, procurou sempre cercar-se de cidadãos que mais podiam ajudal-o em tão milindrosa tarefa. Assim conseguio-o Coronel Bezerril fazer uma administração feliz e deixar a cadeira governamental cheio d’orgulho de haver procedido do modo mais correcto e digno de louvores.” (FIGARINO, Fortaleza, 19 de Julho de 1896).
Bezerril também foi generoso com instituições de educação e caridade: fez significativos donativos ao Colégio da Imaculada Conceição de Fortaleza, à Santa Casa de Misericórdia — que conserva, em sinal de gratidão, seu retrato a óleo — e ao Seminário Diocesano, cujas obras de restauração apoiou após o desabamento parcial do edifício. Ao fim de seu governo, deixou o Estado com todos os compromissos honrados, funcionalismo pago em dia e um saldo superior a 20 mil contos de réis nos cofres públicos — uma raridade administrativa em qualquer época.
A carreira militar de Bezerril também se consolidou. Substituiu o general Artur César na chefia do 2º Distrito Militar, em Recife, quando este seguiu para a campanha de Canudos. No ano de 1912, foi promovido a general de brigada e, mais tarde, reformou-se como general de divisão com graduação de marechal, conforme disposição da lei de 13 de dezembro de 1916.
Mesmo afastado do poder executivo, continuou representando o Ceará no Congresso Nacional, presidindo comissões importantes, como as da Marinha e da Guerra. Em 1912, foi novamente convocado à vida pública: a pedido do Partido Conservador, teve seu nome imposto pelo então presidente da República, marechal Hermes da Fonseca.
“FORTALEZA, 20 – É o seguinte o resultado total da eleição governamental, realizada neste Estado: para governador, general Bezerril: 18.447 votos e coronel Franco Rabelo, 12.837.” (O PAIZ, 1912, Nº 10059, Pág. 4).
MANDATOS:
Presidente de Estado: (1892 a 1896).
Deputado Federal: (1891 a 1893) – (1897 a 1898) – (1903 a 1905) – (1906 a 1908) – (1909 a 1911) – (1912 a 1914).
Senador: 1898 a 1903) e (1908 a 1909).
RAÍZES E CAMINHOS: A GRANDEZA DE UM FILHO DA IBIAPABA:

No dia 8 de março de 1961, os moradores de Viçosa do Ceará fizeram questão de resgatar a honra do marechal Bezerril, uma figura importante tanto para o Ceará quanto para o Brasil. Eles inauguraram um busto dele na praça pública, que posteriormente recebeu seu nome, em uma cerimônia que contou com uma Missa Solene na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção. Além disso, um dos filhos do marechal, o engenheiro Augusto Paranhos Fontenele, esteve presente nessa homenagem. Para celebrar ainda mais sua memória, a cidade de Fortaleza também o homenageou, nomeando a antiga rua do Quartel de Rua General Bezerril em sua homenagem. Uma bela demonstração de respeito e admiração!
A história de José Freire Bezerril Fontenele é, acima de tudo, a história de um homem que enfrentou as limitações impostas pela vida com dignidade e trabalho. O menino de Viçosa, educado entre livros, barro e ferramentas, transformou a dificuldade em impulso e firmou seu nome na memória daqueles que lutaram com o saber nas mãos e os pés firmes no chão da realidade nordestina.
FALECIMENTO DA VIÚVA MARECHAL BEZERRIL FONTENELLE
“Faleceu no dia 17 do corrente na sua residência, em Ipanema, com a avançada idade de 89 anos, a veneranda senhora viúva marechal Bezerril Fontenelle. Com imenso circulo de relações, era reconhecida por todos, sobretudo na alta sociedade de tempos passados, pelos seus dotes de beleza, elegância e de bondade. Foi casada com o Marechal José Freire Bezerril Fontenelle, que ocupou o cargo de governador do Estado do Ceará e foi deputado pelo mesmo Estado e diversas legislaturas tendo sido membro da Constituinte de 1891. Deixa a ilustre dama os seguintes filhos: J. P. Fontenele, médico; Augusto, Eurico, Milton Paranhos Fontenelle, engenheiros civis e Mário Paranhos Fontenelle, advogado, 7 netos e 4 bisnetos.” (CORREIO DA MANHÃ, 1954, Nº 18755, Pág. 6).
“AS FUNCÇÕES PÚBLICAS NÃO SÃO DISTINCÇÃO, NÃO DEVEM SER PRIVILEGIOS: ELLAS SÃO DEVERES” (MARECHAL JOSÉ FREIRE BEZERRIL FONTENELLE).