Impressões de Viagens

Notas de Viagem - Antônio Bezerra

NOTAS DE VIAGEM – ANTÔNIO BEZERRA

RUMO A VIÇOSA: ENTRE CARNAÚBAS, FONTES  E MEMÓRIAS JESUÍTICAS

Bem cedo no dia seguinte já o Sr. Capitão Lourenço estava de pé, e dava-nos instruções acêrca do melhor caminho até Viçosa (hoje, cidade de Viçosa do Ceará).

Tínhamos ainda que percorrer 12 quilômetros. Agradecida a amável hospedagem, deixamos Imbueiras, que eu sabia havia sido uma das mais importantes fazendas dos jesuítas, quando dirigiam as aldeias de índios tabajaras na Serra Grande.

Depois de têrmos contornado um grande cercado, construído de estacas plantadas transversalmente, notei que o caminho ia mudando de aspecto.

Atravessamos agora um espêsso bosque de carnaúbas, cujo solo composto de terras argilo-humíferas me pareceu o fundo de uma lagoa ou de um lugar alagado, que se euxarira ao excessivo calor do sol, e pouco depois começaram de aparecer os altos, primeiros indícios da aproximação da montanha.

À medida que nos elevávamos a vegetação cobria-se de rica folhagem. Quase no tôpo da ladeira tive de admirar a beleza da fonte Itaguruçu, que me trouxe ao espírito vagas recordações da Província de S. Paulo.

Meus olhos cansados da aridez do deserto extasiavam-se agora adiante de verdura que cobria a rocha negra. A frescura, o murmúrio das águas, a variedade das flores, o canto das ves enchiam de uma alegria íntima aquela encantadora solidão.

Apeei-me, banhei o rosto e as mãos, sorvi alguns goles d’água cristalina e quase que esqueci os incômodos da viagem.

Certo de que encontraria nesta terra ubérrima e de gloriosas recordações matéria de sobejo com que saciasse minha indomável curiosidade, passei adiante e entrei na cidade. (ANTÔNIO VIEIRA, 1965, Pág. 97).

IMPRESSÕES DE VIÇOSA: ENCONTRO DE VELHOS AMIGOS E RETRATO DE UMA CIDADE DO INTERIOR

Apenas constou a Luís Januário Lamartine Nogueira, velho camarada que eu havia conhecido na Capital em 1881 quando deputado à Assembléia Provincial, que eu o procurava, veio a correr ao meu encontro, e num instante nos atirávamos nos braços um do outro.

Fui hospedado na casa vizinha, de seu cunhado que se achava ausente, onde encontrei tôdas as comodidades.

Ansioso de ver e conhecer tudo que se dizia respeito a essa importante localidade, saímos logo a percorrer a cidade.

Apesar da hora adiantada, não me incomodavam os raios de sol, por causa da amenidade da temperatura, pois que o barômetro aneróide indicava se achar Viçosa a 840 metros acima do nível do mar.

As ruas correm de norte e sul, sendo a principal a que começa numa pequena praça logo à entrada de quem vem de Itaraguçu, deixando à direita o matadouro, e vai terminar depois de mais de meio quilômetro noutra menor em frente do cemitério.

Tem quatro praças: a de que já falei, outra maior quase ao extremo da rua principal, outra ainda maior ao poente desta onde se acha a igreja de N. S. d’Assunção, assentada na face setentrional, e outra ao sul desta.

Entre as diversas ruas, em grande parte compostas de casas antigas e acaçapadas, merece especial menção a rua de Paris, cognominada assim pelo Dr. Xilderico de Farias, quando aqui residia, em consequências das frequentes desordens e rixas entre os moradores, que à semelhança do povo da capital do mundo civilizado, de um momento para outro se revolta e levanta barricadas em qualquer canto da grande cidade.

O Dr. Xilderico desapareceu de entre os vivos, mas o nome da rua ficou até hoje.

Há contudo excelentes prédios, construídos com a elegância e poroporções dos da Capital, sobressaindo o sobrado do Coronel Joaquim Fontenele, com vinte metros de frente na outra rua ao nascente da principal e esquina de outra que atravessa esta e a grande praça em frente da matriz.

É feito de pedra e cal, e se não fôsse o defeito que se nota na pouca altura relativamente à largura pela perfeição do trabalho ou antes com o luxo com que o está concluindo seu proprietário, poder-se-ia dizer que não tem igual na Província. (ANTÔNIO VIEIRA, 1965, Pág. 98).

NAS TRILHAS DOS JESUÍTAS: O HOSPÍCIO, OS MÁRTIRES E A VOZ DE VIEIRA

No dia seguinte pela manhã levou-me o Dr. José Patrício de Castro Natalense até a igreja cuja tôrre e capela-mor pertenceram ao antigo hospício dos jesuítas.

Ao lado esquerdo vêem-se os alicerces do hospício e o terreno do centro revolvido narrando-me o companheiro que, em consequência da notícia que corria de que aquêles padres por ocasião de sal saída precipitada haviam enterrado muito dinheiro, pessoas do povo escavavam todo o recinto em procura dêsse sonhado tesouro.

Em frente se estende um grande patamar ladrilhado de cantaria, onde se desce por degraus também de pedra.

Pouco adiante está o cruzeiro que assenta sôbre imenso pedestal, que me pareceu ainda de granito.

Penetramos no templo.

Eu senti profundo respeito, parecendo-me ouvir a cada passo a voz do Padre Francisco Pinto e seu companheiro Luís Figueira, os quais depois da malfadada expedição de Pêro Coelho de Sousa neste mesmo lugar penetraram em 1607, sendo primeiro assassinado junto do altar pelos indios Tucurujus; os eloquentes sermões do visitador e superior das Missões do Maranhão, o célebre Padre Antônio Vieira que apareceu em 1659, voltando diversas vêzes para visitar as Missões de Ibiapaba, pelas quais se interessava particularmente, como se vê de sua Voz Histórica. (ANTÔNIO VIEIRA, 1965, Pág. 99).

O TEMPLO E SUAS MARCAS DO TEMPO

O templo é pequeno, e nêle encontrei pouco asseio, achando-se as paredes enegrecidas, prova de que há muito não são caiadas.

A capela-mor é separada da nave por balaustrada de jacarandá negro.

Nos ângulos onde se nota a diferença da nave e da capela-mor, encontra-se à direita e à esquerda um altar oblíquo; e no meio das portas que se abrem nas paredes laterais, na altura de três metros vêem-se uns rostos de anjos de côr natural, três de cada lado.

Observei no fôrro da capela-mor doze quadros coloridos simbolizando diversas passagens, como Davi a tocar harpa, Daniel na cova dos leões, e outros, tendo tão vivas ainda as tintas, que pareciam acabados de pouco.

É pena que não sejam tratados com zêlo devido! (ANTÔNIO VIEIRA, 1965, Pág. 99).

CHEGADA A VIÇOSA: ENTRE MEMÓRIAS, VERDES E FONTES

Passamos à tôrre, e ali tive ocasião de ver o animal reparando o desleixo do homem, e dando-lhe uma lição, se não de economia ao menos de respeito às coisas sagradas.

Um raio caíra sôbre a cúpula da tôrre e abrira grande fenda, por onde as águas da chuva se escoando iam demolindo a parede ate darem com ela em terra, sem que ninguém se lembrasse de amparar-lhe a queda inevitável, quando essa abelha preta, que chama o arapuá, do gênero Melipona, ordem dos Himenópteros, família dos Melíferos, veio formar sua colmeia justamente na abertura feita pela faísca elétrica e impedira assim de continuar o estrago.

Aí está como um protesto à criminosa indiferença com que encaramos os esforços dos nossos maiores.

Visitando o côro, se me apertou o coração de pesar ao ver naquele mesmo lugar onde outrora cantores e instrumentistas elevavam fervorosos hinos de submissão ao Deus de nossos pais, tanta imundície e estêrco e morcêgo, que chegaria para encher cargas!

Retirei-me horrorizado. Achando-se a pouca distância o cemitério, para lá nos dirigimos.

Êste edifício foi levantado a esforços do Reverendo José Tomas de Albuquerque, quando em 1873 missionava esta região.

É pequeno, situado ao nordeste da cidade e tem uma capelinha, que não é mais bem tratada que a igreja paroquial. Tudo o mais em completo abandono! (ANTÔNIO VIEIRA, 1965, Pág. 100).

ENTRE A CÂMARA E A CADEIA: RETRATO DE UMA VIDA COLONIAL

Visitei o prédio provincial, cujo andar superior serve de casa de câmara, e o inferior de cadeia pública, à rua mais oriental, quase na quebrada da serra por aquêle lado.

No arquivo da edilidade descobri êstes livros velhos escritos a mão e de letra quase ininteligivel, onde se acham registrados os atos do govêrno da Metrópole relativos à administração da nova povoação.

Em um notei que se referem ao ano de 1750  em diante, e dêle extrai excelentes notas, que me puseram a par da importância que gozou esta localidade no último século.

Passando ao andar térreo, surpreendeu-me o número dos encarcerados. Vinte e cinco indivíduos que podiam ser bem aproveitados, em vista de sua robusta constituição e vigorosa saúde, cumpriam sentença por diversos crimes!

Da conversa que com êles entretive, fiquei sabendo que apenas um ou outro sabia ler. É sempre assim. Onde a religião não reformou os costumes, a instrução não levantou o espírito e abrandou o coração, há de se encontrar sempre esta miséria.(ANTÔNIO VIEIRA, 1965, Pág. 101).

EM DEFESA DA MULHER: REFLEXÕES DE UMA NOITE LITERÁRIA

À noite recebi a visita de diversas pessoas que me vinham cumprimentar em casa do amigo Lamartine.

Durante quase todo o tempo que estivemos reunidos, entretive-as com a narração de passagens de minha viagem, e principalmente com escolhidos assuntos sôbre literatura.

Lembro-me ainda que por ter expendido idéias acêrca da total emancipação da mulher, e increpado o egoísmo dos homens que as têm privado da representação social, sendo certo que dispõem de talento, de bom senso e sobretudo de espírito econômico, capaz de dirigir-nos com mais sabedoria que os nossos políticos, valeu-me o afã com que advoguei o seu direito a simpatia das senhoras presentes, que me saudaram com entusiasmo.

Não ficou aí minha defesa a essas adoráveis criaturas, sacrificadas muitas vêzes à perversidade dos homens, que não conhecendo a grandeza de sua missão, acusam-nas de todos os males, quando só êles são os culpados por faltar com o devido aprêço à sua abnegação e às suas virtudes.

A mulher é para mim o anjo bom que encontramos no caminho da vida; e que se alguma vez se trabsvia, é sempre arrastado por nós; ao passo que na maioria dos casos nos impede a tudo quanto há de grande e de generoso, disse o grande mestre.

No seu coração não pode aninhar-se a maldade; esta é só própria do sexo forte, principalmente em um tempo em que se tem perdido quase a noção do que é santo, do que é nobre, não dessa nobreza convencional, mas da que tem sua origem mais alevantada – a homenagem ao verdadeiro merecimento.

Eu não discorria pelo prazer de ser agradável, não; externava uma opinião que mantenho de há muito.

Foi, pois, bem acolhida a minha apreciação. Fazendo-se tarde, retiramo-nos satisfeitos da ligeira reunião, que fornecera a todos momentos de agradável passatempo. (ANTÔNIO VIEIRA, 1965, Pág. 102).

A BELEZA DO MONTE CÉU E  CIDADE DE VIÇOSA AO AMANHECER

Apesar da intensidade do frio que me obrigava a ficar mais tempo no leito, ergui-me cedo pela manhã no dia 21 e dirigi-me ao monte denominado Céu, prolongamento da cordilheira que se levanta ao poente e forma o planalto onde se acha assentada a cidade.

Em meio da encosta, não me sendo possível passar adiante em consequência da espessura do mato, voltei-me para o lado do nascente.

Que magnífico espetáculo!

O sol, assomando na fímbria do horizonte, derramava uma chuva de ouro sôbre a crista das ondas alteradas que formam os montes, sucedendo-se uns aos outros desde a planície de muitos quilômetros.

Foi esta uma das mais agradáveis impressões que tenho sentido em minha vida.

A côr azul, em tôda a escala de suas variedades, desde a de ultramar à de cobalto, matiza por maravilhoso efeito de luz o dorso daqueles píncaros, que se assemelham de modo admirável a ondas do oceano.

Té o sol parecia afogado num nimbo azul, tão suave se erguia aquêle globo de ouro no meio do espaço sereno, onde parecia que perdiam seus raios a intensidade ao se esbaterem de encontro à extensão anilada.

Razão de sobejo teve o Padre Vieira para denominar Viçosa – a filha do mar de pedras. De feito, a ilusão é completa.

Dificilmente a natureza compõem panorama mais arrebatador, arranjado de cenas mais variadas, em que servem de decoração as planícies, as matas, os alcantis, a dilatação dos horizontes, a imensidade enfim repleta de atrativos!

Meus olhos extasiavam-se na contemplação de tanta beleza, estranha por certo ao fim do sertão.

A meus pés ficava a cidade com sua casaria, suas ruas e travessas visivelmente delineadas, e à direita, no cimo, os recortes da serrania coroada de ciridente vegetação, cujo verde sombrio e carregado constrastava com o azul suave que se distende em frente.

Tendo de visitar outros pontos, desci afinal do Céu, lançando ainda um olhar sôbre a cena, que tanto me havia maravilhado.

Os lugares que mais nos impressionam são como os amigos de quem nos separamos e que desejamos tornar a ver.

A cidade sentada no meio do perene jardim é cercada de lindas fontes que embalam-na com o marulho de suas águas e alimentam Viçosa vegetação, circunstância que talvez tenha influído para dar-lhe o nome que tem.

Itaguruçu, Caranguejo, Ramelosa, Pinga-Bananeiras, Tacaranha, Laranjeiras, Conceição, Beija-Flor, Catinguba, Careta e Aia fornecem motivo de sobejo para a mais esplêndida descrição, esta por sua natureza singela, aquela pela selvatiqueza dos seus arredores.

A principal é Tacaranha, mas agradou-me de preferência a do Caranguejo, na quebrada da serra, pela presença de abruptos precipícios, não se podendo lá chegar senão dificilmente.

As águas caem em grossas gôtas de chuva de uma altura de 10 metros, vazando de grandes pedras, em forma de cúpula que me pareceram formadas de xisto argiloso, perfeitamente cobertas de plantas aquáticas e depois de encherem dois pequenos poços artificialmente talhados no solo de uma pequena gruta, cujas paredes são sempre adornadas de lindas trepadeiras e flôres variadas, precipitam-se com canoro murmúrio através de hórridos despenhadeiros.

A qualquer hora do dia se conserva sempre frígida a água daquela fonte, e não sei se a beleza do local ou outras circunstâncias atraem para aí a maioria dos habitantes.

Como por tôda a parte onde a natureza apresenta aspecto grandioso, onde as grutas dos rochedos ou profundezas da floresta oferecem surpreendentes atrativos, a imaginação crê encontrar também nestas passagens sua fada bela e graciosa, de talhe elegante e ligeiro como o espique das palmeiras, espáduas brancas como a neve, olhos azuis como a transparência do céu, cabelos louros como nuvens de ouro, protegendo e assistindo aos montanhenses nos seus trabalhos, do mesmo modo que a fada Arie de Désiré Monnier, cuja voz suave e pura em lânguidas stanzas se ouve às vezes à calada da noite.

Realmente, a poesia deve ter nascido não da inspiração de Apolo, mas do seio da natureza virgem ao desdobrar a universidade dos seus esplendores!

Verdadeiramente admirador da natureza de Viçosa, que nada tem em comum com que eu havia visto e visitado até então, entendi mais longe o círculo dos meus passeios.

A cada passo cenas surpreendentes chamavam minha atenção.

Sem tempo para fazer um estudo mais detido das belezas naturais que enriquecem êste encantado ninho, erguido no seio dos alcantis a que é moldura esplendorosa a floresta, malgrado o adiantamento da estação outonal, eu vagava da direita para a esquerda, dêste para aquêle lado, a galgar os precipícios, a admirar a variedade de perspectivas que de qualquer parte se apresentam sempre sob nôvo aspecto.

Não mais a solidão do deserto, a tristeza das campinas, a nudez das árvores, o silêncio dos caminhos; mas o vozear constante da natureza aminada, o musgo tepeçando a terra, as rochas, o tronco das árvores; a folhagem mais rica e luxuosa revestindo de alto a baixo os contornos da serrania, o rumor da aragem, o susurro das cachoeiras, o gorjeio das aves a derramarem por tôda a parte vida, movimento e alegria!

As mais ignotas sensações nos surpreendem de contínuo quando nos afastamos alguns passos da cidade, principalmente para o lado nascente, onde surgem os grandes talhados, cuja presença infunde certo horror, tão alcantilados e rápidos são os cortes quase sempre a prumo.

Somos compensados. Para cima e para baixo as vistas mais variadas, os contrastes mais atraentes se reunem aqui num largo espaço: sítios selvagens, imagens risonhas, abismos medonhos, veredas sombrias e cobertas de flôres.

Galgando a montanha, se passa por diversas zonas de vegetação, comos e fizéssemos uma viagem através de diferentes graus de latitude.

Recolhi-me a casa, dispus o necessário para passeio mais longe no dia seguinte.

Ao alvorecer da manhã já eu estava de pé, e Tibúrcio apresentou-se disposto a acompanhar-me.

Partimos.

Tomamos direção norte pela ladeira que vai ter ao Tubarão.

Próximo à cidade o terreno é alimentado de diversos brejos, e as plantações apresentam-se viçosas, independente de qualquer cuidado.

O caminho irregularmente acidentando é sempre sombreado de grandes árvores da família das Moreáceas, ora aqui ora além.

Começamos a descer.

Diante de nós se apresentavam agora novos panoramas, em que os cones dos montes mais elevados dêste lado, mais baixo daquele, êstes de uma coloração mais alegre, aquêles mais sombria e terna pelo efeito da distância a desaparecer na linha esfumada do horizonte, produziam o mais maravilhoso aspecto.

De instante a instante eu tinha de deter o passo para deliciar-me na contemplação daquela natureza selvagem, grandiosa, cujas belezas desconhece aquêle que não galgou ainda o cimo das montanhas.

A planície cansa a vista pela presença do mesmo objetivo – a extensão; os pontos elevados, porém, arroubam-no com a variedade de suas perspectivas que são os caprichos de uma natureza vigorosoa e criadora. (ANTÔNIO VIEIRA, 1965, Pág. 103-106).

A BELEZA CONTÍNUA DAS FLORES DAS MONTANHAS CEARENSES

Continuamente eu colhia de uma e outra mergem o caminho flôres de todos os matizes, de tôdas as formas, cada qual mais caprichosa, mais elegante, que pendiam da ramada das árvores.

Eram flôres de plantas leguminosas, papilioáceas, minosáceas, rosáceas, melastomáceas, passifloráceas e outras que constituem a riqueza da flora cearense onde o botanista muito tem ainda que explorar.

Em vista da ostentação de tanta beleza me ficou a convicção de que a inflorescência das árvores destas montanhas se sucede de contínuo sempre variada, sempre esplêndida, isto é, que após as flôres da estação hibernal surgem novas igualmente lindas, próprias da outra estação.

Adiante apresentou-se nos do lado esquerdo um imenso talhado, largo e sombrio donde surgiam hastes de árvores da família das Sapotáceas, que mediam cêrca de 25 metros de altura.

Alguém que no descuido ali se precipitasse, dificilmente voltaria com vida.

São estas desigualdades do solo que formam o belo horrível das montanhas.

O povoado do Tubarão apareceu-nos afinal entre os montes, e pelas curvas da ladeira ora se apresentava à nossa direita, ora à nossa esquerda, ora em frente. (ANTÔNIO VIEIRA, 1965, Pág. 106).

O JOÃO-DE-BARRO E A CRUZ

Embaixo Tibúrcio chamou a minha atenção para o lado direito.

O joão-de-barro (Furnarius rufus), passarinho vermelho, gritador dos Anabatidae, bem conhecido entre nós, construíra seu forno ou casa no braço direito de uma grande cruz que se erguia a poucos passos da estrada, e no outro braço chamava em estridente gargalhada o par querido, que respondia no mesmo tom a correr com passo cadenciado para êle.

É uma avezinha santa, diz Tibúrcio; trabalha nos dias úteis e não consta que alguém a tivesse visto ocupada nos domingos.

Eu mesmo já tenho feito reparo, e afianço que guarda os dias santificados.

Ao rir-me de tanta ingenuidade, Tibúrcio formalizou-se e procurou convencer-me da religiosidade do alegre tenuirrostro que nada tem de grave.

Vá com vistas aos modernos ornitologistas, já que não encontrei nada igual nos compêndios de Dumeril, Meyer, Iliger, Temminck, Vieillot, Lherminier, Lesson, Gray, nem ao menos no de Audubon que se ocupou especialmente dos pássaros da América.

Pelas 8 horas chegamos ao Tubarão. (ANTÔNIO VIEIRA, 1965, Pág. 107).

O POVOADO ENTRE MONTES: HISTÓRIA E PITORESCO DA CAPELINHA E SUAS TELHAS BRANCAS

É um povoado insignificante a 12 quilômetros de Viçosa, tendo apenas algumas casas de um e outro lado da estrada, que formam aí uma espécie de praça, em cujo centro se acha uma capelinha mal construída.

Fui informado de que o pequeno sino que se vê do lado de fora sob um telheiro, viera daquela cidade, e havia sido fundido ali mesmo ao tempo em que dirigiam as Missões os padres jesuítas.

Assentado entre montes num terreno mais ou menos acidentado, a presença das carnaúbas dá-lhe certo ar alegre; mas o que o torna mais pitoresco é a côr branca das telhas.

Vistas de longe fazem lembrar as edificações mourescas, cujos tetos deslumbram aos raios do sol. (ANTÔNIO VIEIRA, 1965, Pág. 108).

VISITA À MINA DE COBRE EM UBARI: OBSERVAÇÕES E COLETA DE AMOSTRAS

Do proprietário da casa que enfrenta com a parede da igrejinha pelo lado de leste para onde me dirigia a fim de descansar um pouco da fadiga da viagem, soube que não longe do povoado existia uma rica mina de cobre.

Ardendo em desejo de visitar sem demora a jazida do valioso minério, exigi informações mais completas a respeito dela, e fiz chamar o guia que nos conduzisse aos arredores de Ubari, cerca de três quilômetros.

O guia não se fêz esperar, e tendo prestado notícia mais minuciosa sôbre a riqueza da mina, pusemo-nos a caminho.

De longe apareciam os cabelos negros das rochas de Ubari, que se estendiam para o lado de noroeste.

Paramos ao fim de 40 minutos ao pé da mina que o nosso guia não cansava de exagerar a opulência, repetindo de quando em vez que àquele lugar já havia conduzido diversos visitantes.

Realmente, quebrada a camada exterior da pedra, que é formada de xistos argilosos, vê-se uma substância verde irregularmente disseminada na massa, que talvez determinasse as fáceis clivagens que obtivemos.

A matéria verde assemelha-se a essa mistura de hidrato e de carbonato de cobre que pela ação do ar úmido ou dos líquidos acidulados, forma-se na superfície dos objetos feitos dêsse metal, e para mim, conquanto não me fôsse possível servir-me na ocasião do instrumento de Antonie Schwab, desenvolvido por Berzelius e Plattner, proposto em vista de métodos práticos seus por Kobell e Sceerer, cujo processo é preferível nas análises qualitativas aos da vida úmida, fornecendo ainda resultados mais seguros que o estudo das formas cristalinas, da densidade, etc., não havia dúvida que se encontraria aqui mais ou menos minério de cobre.

Tendo feito colhêr alguns fragmentos da rocha, retrocedemos, reservando-me para prosseguir as experiências na cidade de Viçosa, onde ia submetê-los à ação que o fogo e os diversos reagentes fizessem sôbre os minerais. (ANTÔNIO VIEIRA, 1965, Pág. 109).

A ORIGEM E PRIMEIROS ANOS DA VILA VIÇOSA NA CHAPADA DA IBIAPABA

Sôbre a origem de Viçosa consta que foi esta localidade a primeira vista da Província, pois que tendo obtido Pêro Coelho de Sousa autorização do governador-geral, Diogo Botelho, para fazer a conquista das terras que se estendiam do Ceará ao Parnaíba, partiu da Paraíba em 1603 com 65 soldados e 200 índios, e ali chegou em 20 de janeiro de 1604; mas não podendo resistir aos assaltos dos indígenas instigados pelo francês Mombille, se retirou para a foz do Pirangi, depois Ceará.

Pêro Coelho conseguiu dominar tôda a chapada da serra da Ibiapaba (*)

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(*) Estudos posteriores, mais à vista de novos documentos, fazem certo que Pêro Coelho venceu os franceses de Mombille, fazendo alguns prisioneiros. Rumando, então, ao Parnaíba, não pôde prosseguir até o Maranhão porque os seus foram contrariados pelos seus soldados. Voltou ao rio Ceará e aí fundou o forte de S. Tiago, no local em que, mais tarde (1612) levantou Martim Soares Moreno o fortim de S. Sebastião.

          Depois, em 1607, os jesuítas Francisco Pinto e Luís Figueira saíram de Pernambuco com uma escolta de quarenta índios, concedida pelo esmo governador, encaminharam-se à Ibiapaba, e encontrando a mesma resistência, foram assassinados não só os seus companheiros como até o Padre Pinto na ocasião em que celebrava o Santo Sacrifício da Missa.

O Padre Figueira escapou à morte por ter fugido a tempo (*)

Depois do período da guerra os holandeses em que êstes influíram sobremodo no espírito dos selvagens desta zona, os jesuítas do Maranhão intentaram chamá-los a fé e vieram missioná-los.

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(*) Sôbre essa viagem dos dois jesuítas muito se há escrito. Paulino Nogueira, na Rev. do Instituto do Ceará, V. 18, p. 5, publicou substancioso trabalho a respeito. Outro, do Barão de Studart, saído em Tricentenário da Vinda dos Portugueses ao Ceará, Fort. Tip. Minerva, 1903, p. 47, deve ser lido como segura orientação. Mas a Relação do Maranhão, de autoria do próprio Luís Figueira, é a mais autêntica fonte de esclarecimentos de aludida expedição. (Acha-se transcrita na Rev. Do Inst. Do Ceará, v. 17, p. 97; e em Tricentenário referido, p. 93)> 

Viçosa chamou-se outrora aldeia Ibiapaba, e em 7 de junho de 1759 foi elevada a vila sob a denominação de Vila Viçosa Real e criada comarca separada de Granja pro Lei n.º 912 de 20 de agôsto de 1859.

Vinte e três anos depois foi elevada a cidade por Lei n.º 1.994 de 14 de agosto de 1882.

Tem duas aulas primárias, uma para o sexo masculino e outra para o feminino, ambas regularmente frequentadas.

Quanto às suas rendas não corresponde à importância de que goza, porquanto o ano passado arrecadou apenas a estação provincial a quantia de 4:865$488 réis, soma diminuta relativamente a muitas de inferior categoria.(ANTÔNIO VIEIRA, 1965, Pág. 114).

DOS BENS DO SANTO E DOS TEMPOS DOS JESUÍTAS

Dos dados que extraí dos velhos registros notei que já gozou de grande importância esta localidade, ao tempo em que aqui residiam os jesuítas; pois que rendia à câmara Municipal anualmente mais de três contos de réis, e se abatiam por dia 20 reses para o consumo da população.

Dos bens deixados pelos padres da Companhia, como eram conhecidos os jesuítas, parte passou a Coroa e parte, como a fazenda da Tiaía, ficou patrimõnio da matriz.

Esta, segunda fui informado, consta apenas de terras, porque os gados foram vendidos em bem do respectivo administrador.

Constituía bem do santo, e não sabendo êste reclamar o seu direito, perdeu tudo.

Faz isto lembrar o que se deu há anos com Santo Antônio dos Pobres, que se venera na Bahia.

Um gatuno penetrou na igreja, roubou o rico chapéu do santo e deixou-lhe um de palha velho com o dístico: “Quem é pobre não tem luxo”! (ANTÔNIO VIEIRA, 1965, Pág. 114).

MEMÓRIA DE VILA VIÇOSA REAL: O PELOURINHO E A PRESENÇA MILITAR:

Com alguma dificuldade descobri o lugar onde se ergueu em 1759 o pelourinho, a que assistiu o Governador Bernardo Coelho da Gama Casco.

Ficava na pequena praça a leste da igreja-matriz, pouco além da casa de Inácio Correia.

Vila Viçosa Real mantinha um corpo regular de tropas, e gozou de certa importância até o princípio dêste século. (ANTÔNIO VIEIRA, 1965, Pág. 115-116).

PROGRESSO E BARBÁRIE EM VIÇOSA: ENTRE O SOPRO DA MODERNIDADE E AS SOMBRAS DO PASSADO

Na cidade existem diversos estabelecimentos comerciais bem sortidos, e nos arredores excelentes propriedades rurais que produzem em abundância cereais, cana, fumo e café.

Se mais não são aproveitadas as suas terras, a razão está na falta de consumo em consequência da dificuldade de transporte, obrigando aos plantadores a restringir a área de suas colheitas.

Poucos dias antes de minha chegada aqui, transpunha a serra um locomóvel fabricado nas oficinas de Breval, em Paris, que se destinava ao serviço da fazenda do negociante João Benício Beviláqua.

Montado sôbre quatro rodas, ao aproximar-se da cidade, os condutores deitaram fogo a uma pouca de palha depositada na caldeira de sorte que expedindo grossa coluna de fumo, atravessou as ruas aquela marca de progresso, sendo saudada por todos que se empenham pelo engrandecimento da terra do berço.

Foi um dia de contentamento geral, e que deveria marcar para a localidade uma época de prosperidade.

Cabe agora a outros imitarem o exemplo do ousado negociante e pelos meios aconselhados pela moderna agricultura substituírem a rotina do cultivo e amanho das terras, que lhe traz perda de tempo e dinheiro.

Não sei se será crível esperar rápido desenvolvimento para Viçosa, quando o homem reflete que desde seu comêço a êle se opõe o gênio selvagem da população.

Um filho da Ibiapaba é como um montenegrino: não sabe andar sem trazer à mão uma espingarda e no quadril a longa faca de mato.

Não me lembro de os ter encontrado desarmados.

O sangue dos Tabajaras que lhes corre nas veias talvez concorra para que de quando em quando se reproduzam nesta região as cenas de barbaria dos seus antepassados.

O Padre Francisco Pinto abre a extensa lista dos mártires que têm caído ao choque do punhal dos sicários.

Pelo tempo adiante, outro ministro de Cristo, o Padre Felipe Benício Mariz, é esbofetado pela índia Dionísia, mulher de Custódio Pinto, e depois de sofrer as mais revoltantes afrontas, obrigam-no a deixar a freguesia que regia como vigário.

Logo depois, no meio da pequena praça que extrema a cidade pelo lado sul, o padre Martiniano José Valcasso é assassinado bàrbaramente, e ainda hoje se aponta ao visitante o lugar onde ensopou o terreno o sangue do desditoso sacerdote.

Sem descer a minuciosidade sôbre outros crimes menos importantes, mas revestidos de negras côres, avulta logo entre os mais horrorosos a matança de Taperacima.

Ao correr do ano de 1848, Vicente Alves Ferreira dos Santos, feitor da fazenda dêste nome pertencente ao Dr. Lima, habitava uma grande casa de taipa coberta de palha, situada num alto à direita da estrada que vai a S. Pedro de Ibiapina, da qual distava uns 170 metros.

Taperacima pertencia ao distrito de S. Pedro, têrmo de Viçosa, e ficava ao sul desta vila cêrca de 48 quilômetros mais ou menos.

Tendo-se indisposto com José de Alencar Sousa, mais conhecido por José Brilhante, natural da serra dos Martins, e com o Tenente-Coronel Joaquim Inácio Pessoa, feitor da fazenda Jaguarapinima do Senador Paula, vieram êstes a Viçosa denunciá-lo como criminoso e conseguiram da autoridade competente ordem de prendê-lo.

De volta de Jaguarapinima mandou o tenente-coronel notificar guardas, e tendo reunido 85 pessoas, acompanhado de José Brilhante e do Oficial de Justiça Gonçalo Pereira da Costa em a noite de 11 de março dêsse ano pôs cerca à casa de Vicente Alves. 

 Não querendo êste abrir a porta, fêz vir ao lugar da diligência o Major João da Costa e Silva e o feitor da fazenda Jaguaruna, do Dr. João Fernandes Barros, geralmente conhecido por Barrinhos, um e outro amigos íntimos do denunciado, para que o convencesse de se entregar à Justiça.

Ambos compareceram sem demora, e quando exortavam ao amigo que se deixasse prender, José Brilhante fês fogo sôbre Barrinhos que caiu imediatamente morto; e como o major o exprobrasse dêsse ato de barbaridade, é atravessado por outra bala e expira ao lado do companheiro de infortúnio.

Em seguida deitam fogo à casa, acompanhando ao incêndio os gritos, os insultos dos canibais sedentos de sangue.

Nessa dolorosa emergência, saem fora Vicente e o pardo Inácio que com êles se achavam na ocasião, e atirando sôbre os que lhe tomam a frente, procuram salvar-se, correndo em busca da mata que limitava uma pequena ladeira à direita da casa.

Inácio é morto logo, e Vicente caído mais adiante, acabam os sicários de matá-lo a facadas.

As chamas iluminavam com seu sinistro clarão aquela cena de horror em que várias vêzes mais se têm excedido a perversidade humana. (ANTÔNIO VIEIRA, 1965, Pág. 116-117).

A HECATOMBE DE TABATINGA: TRAGÉDIA DE ÓDIO E SANGUE NO SERTÃO

Assoma sôbre os crimes o crime de Tabatinga.

Tabatinga – essa tragédia de ódio e vinganç, de sangue e ferocidade, sem igual talvez na história da humanidade pela série de peripécias cada qual mais horripilante que a compõem!

Que homem de coração não velará a face de vergonha ao ouvir a narração da pavorosa carnificina, praticada no último quartel dêste século da ciência e do progresso, diante da qual parece que desapareceram por insignificantes as crueldades cometidas por Antônio Gasperoni, famoso bandido de  Terracine e Lagoas Pontinas; por Wutchklo Paulowitcho, célebre salteador da B´sonia; por Stenk Razin, o terrível pirata do Volga!

Pelas duas horas da noite de 6de outubro de 1878, Francisco Gonçalves da Costa, vulgo Juriti, ajudado dos filhos, genros e outros, assaltam a propriedade do Major Inácio José Correia, levando a ferro e a fogo tudo que encontram.

Aos golpes e às balas caem D. Ana Maria Correia, espôsa do Major Correia; Francisco José Correia, filho do mesmo, de 23 anos de idade; Maria da Natividade Correia, filha do mesmo, de 15 anos; Itelvina, idem, de 9 anos; Maria do Carmo, idem de 5 anos; Joana, criada, de 18 anos; Manoel de Freitas, criado, de 18 anos; Feliciana, idem, de 6 anos; Manuel, idem, de 6 anos; Honorato, idem, de 2 anos; Quitéria Correia, sobrinha do mesmo major; Antônio, idem de 5 anos; Francisca, idem, de 3 anos; Antônio Ferreira Barros, que veio em socorro, de 38 anos; Pedro Ferreira Barros, idem, de 36 anos; Manoel, idem, de 46 anos; José Duarte, idem, de 25 anos; um menino, de nome Macário, que ali se achava casualmente, de 8 anos; Florêncio, idem, de 5 anos; e saem feridos, João José Correia, outro filho do major, de 21 anos; Elias Antônio da Rocha, que ali pernoitava, de 55 anos, e Vítor de tal, de 40 anos.

Escapou da horrível hecatombe o Major Correia, porque  apenas foi a casa assaltada, sua senhora, com um crucifixo nas mãos, e as filhas, e joelhos, lhe pediam fugisse enquanto era tempo, persuadidas de que só por êle sofreriam qualquer violência.

Engano manifesto e doloroso!

Correia cede afinal, e auxiliado por dois filhos, saiu furtivamente pelos fundos para o mato próximo, donde pouco depois viu arder a casa com os entes que lhe eram mais caros!

Que cruciante espetáculo para o coração de um pai!

Imagine-se àquela hora da noite o estampido dos tiros, o vozear da turbamulta desenfreada, as súplicas e gemidos dos feridos, as imprecações e ultrajes dos facínoras, uns a trucidarem as vítimas, outros a acumularem matéria combustível o incêndio, e no meio das labaredas as contrações musculares de dezenove criaturas inofensivas.

Edgar Poe, com todo o arrõjo de sua imaginação extraordinária não seria capaz de inventar, de conjecturar sequer nada mais bárbaro, mais selvagem que a hecatombe da Tabatinga! (ANTÔNIO VIEIRA, 1965, Pág. 118-119).

A ORIGEM DE ANTÔNIO FILIPE CAMARÃO: CONTROVÉRSIAS E CERTEZAS SOBRE O HERÓI POTIGUAR

Esta cidade reclama ainda para si a glória de ter visto nascer em seu solo o índio Poti, um dos heróis da guerra holandesa, o célebre Antônio Filipe Camarão.

O Comendador Antônio Joaquim de Melo contesta a Francisco Adolfo Varnhagen a honra de ser êle natural do Ceará, e fá-lo filho ilustre de Pernambuco; Pereira da Silva dá-lhe por pátria a Paraíba, e se bem que Aires do Casal o tenha como nascido nesta Província, não há hoje a menor dúvida que era do Rio Grande do Norte.

Antônio Potiguaçu, mais tarde Antônio Filipe Camarão, era de nação potiguar, e os Potiguares habitavam o terreno compreendido entre os rios Paraíba e Apodi.

O mapa do Livro da Razão d’Estado (*), de Diogo de Campos Moreno, autor do Jornal do Maranhão, e tio e tutor de Martim Soares Moreno, designa e até descreve a aldeia de Camarão próximo da antiga vila da Extremoz, hoje extinta, tendo por nome Iguapura ou Igapó, à margem da lagoa Guajeru.

Com o que a respeito dêle escreveu Diogo Moreno, naquela obra, está de acôrdo a narração do Padre José de Morais, coevo e testemunha ocular de muitos fatos ali mencionados; é confirmado pelo Padre Fernão Guerreiro nas suas Cartas Anuas, e ainda pelo Padre Antônio Vieira na Relação da Missão da Serra da Ibiapaba.

Da narração de José de Morais vê-se que o grande cacique foi batizado solenemente na sua aldeia a 22 de fevereiro de 1612.

Não consta que o Camarão (Antônio Filipe) tivesse passado do estabelecimento português nesta Província e das aldeias vizinhas.

_______________

(*) Mais precisamente – Livro que dá razão do Estado do Brasil, divulgado em edição crítica, com Introdução e Notas de Hélio Viana. (Publicação do Arquivo Público Estadual de Pernambuco, Recife, 1955). (ANTÔNIO VIEIRA, 1965, Pág. 121).

RELÍQUIAS DO PASSADO: FRAGMENTOS INDÍGENAS E HERANÇAS JESUÍTICAS

Foram-me oferecidos fragmentos de louça grossa, trabalho de tempos remotos encontrado em uma escavação não longe da cidade, que pela espessura, pelo pêso e configuração me pareceu pedaços de urnas, nas quais era costume enterrarem os índios seus mortos.

Entre as raridades que por aqui se encontram, nota-se uma cadeira de recôsto à Luís XIII, como as que se vêem nas velhas gravuras de Abraham Bosse, que pertenceu aos jesuítas e hoje a família do Sr. Vicente Magalhães, a qual tem na sola do dorso entre as insígnias daquela ordem, em baixo relevo, as letras IHS.

E deveras um objeto de muita valia, que nem por isso lhe dá grande aprêço o atual possuidor.(ANTÔNIO VIEIRA, 1965, Pág. 123).

VIAGEM A COATIGUABA: IMPRESSÕES E MEMÓRIAS DE UM CAMINHO PELO SERTÃO

Depois de alguma demora regressaram à cidade os companheiros; eu e Lamartine continuamos a viagem.

O caminho por aqui vai sempre conservando o esmo aspecto até Coatiguaba, onde o terreno se deprime profundamente em consequência do riacho deste nome, que recebendo àgua de diversos brejos do distrito de Barrocão, se precipita no vale do lado do nascente e se lança no Itacolomi, que por sua vez vai engrossaro Coreaú.

Coatiguaba é um lugar aprazível.

Aqui residiu em princípio deste século o Ouvidor Luís Manuel de Moura Cabral e da casa que lhe pertenceu, encontram-se ainda os alicerces.

Devia ter sido homem de fortuna avaliando-se pelos restos das construções ainda existentes à esquerda da estrada onde se vêem lindas e robustas gameleiras (Ficus sp), que, como tive ocasião de verificar, não são das classificadas por Von Martius, mas de espécie diferente. (ANTÔNIO VIEIRA, 1965, Pág. 127).

 

CAMINHOS E COSTUMES: UM PASSEIO À VIÇOSA NO ALVORECER DO SÉCULO XX

Minha Viagem a Viçosa – Convites do meu amigo José Antonio d’Oliveira e coronel Antonio Rodrigues Carneiro

I

Não sou escriptor para descrever com vivissimas cores poéticas as impressões de uma agradavel viagem, que desvia me completamente da vida sujeita e responsavel que mantenho.

Limitar-me hei simplesmente ás principaes occorrencias durante o trajecto, nossa estada e volta.

Partimos pelas 4/2 horas da tarde do dia 14, do largo da Matriz d’esta cidade.

A comitiva era composta dos illustres cidadãos: José Adonias de Araujo e sua Exma. senhora Raymundo Joaquim d’Oliveira, José Antonio d’Oliveira, (noivo) J. Moreno, Jose Rodrigues de Carvalho, José Ildefonso e Carvalho e eu que na maior harmonia possivel seguimos caminho de Viçosa; – havendo simplesmente divergencia entre os animaes que cavalgamos, pois o meu amigo Raimundo Joaquim d’Oliveira, teve a amabilidade de ceder o seu fino cavallo, á Exma. D. Rosinha, trocando-se as sellas na distancia de 1 kilometro da cidade.

Assim, fizemos uma viagem rapida e sem incidente a lamentar.

Na distancia de 2 kilometros á Jaburuna, fomos surprehendidos por uma forte chuva que apenas durou minutos, o sufficiente para molhar-nos os costados que foram enxutos com uma respeitavel garrafa de cognac Francez, vinda dos bolços da carona de um companheiro. Essa felismente, não estava molhada.

Chegamos á Jaburuna ás 6 1/2 da tarde percorrendo em 2 horas 4 leguas kilometricas.

Ali apeamos-nos emquanto tomavamos um copo d’agua e prosseguimos no nosso eterno caminhar em busca da casa do Sr. Bonifacio, que alcançamos por volta de 9 horas.

Tornou-se esse trajecto mais difficultoso pela escuridão da noite e sinuosidade do terreno cheio de barrancos, etc.

O Sr. Bonifacio recebeu nos com a sua proverbial hospitalidade, tratando immediatamente de armar redes no alpendre da casa, afim de descansarmos.

O meu compadre e amigo José Carvalho, queixava-se muito do lugar melindroso, dizendo estar muito estragado, do que colligi haver falta de exercicio na equitação. Além de tudo isto, estava atacado de outra molestia que o inutilisava completamente: o estomago que ha 12 horas  alimentava-se com liquidos, sem versolidos.

Isto deu lugar ao enthusiasmo do meu compadre quando deparou com um pào: – exclamando: – Que pão bom!!!

Uma hora decorrida apresentava-se enviado pela Providencia o nosso pagem Goiabeira, conductor de nossa bagagem e dos memoraveis alforges do amigo Raymundo d’Oliveira, que agasalhavam um opiparo jantar.

Os companheiros rodearam o amphitrião que incansável em destribuir a refeição, aturdia-se com tantos – “Ande com isso” – pronunciados especialmente pelo meu compadre Carvalho, que já havia mordido um pão.

Eu, sentia-me resfriado da chuva, e sem poder mudar de roupa, perdi completamente o appetite.

Em todo o caso  fui honrado com a brilhante meza na qual eximiram-se na gastronomia os Srs. j. Moreno, José Carvalho, raymundo Oliveira e o noivo, que desempenharam perfeitamente seus papeis. O amigo José Ildefonso que collocou-se junto a mim não mostrou tanto appetite devido ás constantes preoccupações de espirito, pois, havia deixado com pouca saude sua Exmª Srª e uma filhinha, a quem idolatara.

Eu pouco comi devido a humidade da roupa e talvez ao cognac Francez. 

Comtudo ——– honra a uma gallinha ch—- lombo de carne de ——- despedimo-nos depois de terem tomado uma chicara de café. Eu tomei chá de herva cidreira.

Emmudecemos com o abdomem repleto, cada qual agasalhando-se em sua rede de dormir. A bôa hospitalidade ficou envolta no maior silencio e em negra escuridáo.

O noivo de quem ainda não me occupei conservava-se silencioso, prognosticando um futuro esperançoso e manancial. (MANOEL GOUVEIA apud A CIDADE/CE, 1901, Nº 8, Pág. 1).

II

VIAGEM AO SERTÃO: RETRATO DA ABANDONO E DA RESISTÊNCIA CEARENSE

A’s 4 da manhã partimos da casa do Sr. Bonifacio em direcção à serra.

 

Ao romper o dia fômos obrigados a saudal-o com o celebre cognac do dia anterior e esperar pelo noivo e José Ildefonso que vinham com um atraso de 10 minutos.

Como é bela a manhã na estação invernosa e em pleno campo!

Os pulmões aspiram um ar puríssimo, enchendo o corpo de vida e robustez.

Tal foi a animação dos meus companheiros ao saudar o astro rei; que J. Moreno e José Carvalho, pediam pelo amor de Deus, um copo de leite.

Atalhando caminho batiam de casa em casa espreitando todos os curraes de gado; porem debalde – nenhum vivente parava por aquelles sítios; – outr’ora tão habitados!!

Desde minha sahida que notava a falta de cultura, o que entristeceu-me vendo roçados e capoeiras, envoltas em mata-pasto e completamente abandonados os terrenos, donde colhemos a substancia para a vida animada.

Que será do Ceará, se faltarem braços para cultivarem a fertilidade do terreno depois de um assombrosa secca?! Compromette-se em tudo isto o Governo que mais do que eu, tem sido testemunha das exprobações de um povo heroico; e, no entretanto o mal está quase que irremediável!!

Um conjunto de foças alquebradas, faltando o alimento quotidiano e a semente para o sustentáculo de duas famílias e salvaguarda de seus créditos!

Completa ruina! Tudo fanado, tudo estéril, porque não vem em soccorro d’estes  infelizes, um braço que os proteja, que os anime à vida que sempre souberam manter com honra e dignidade!!

Sou estrangeiro porem sinto animar-se o sangue quando ouço bemdizer um Cearense, – e é n’este principio humanitário eu pelo proteção aos Cearenses desvalidos e desfavorecidos da fortuna!

Propoz me a fazer uma simples descripção de minha viagem – prossigamos: Passamos pelo Arapuhá moradia do Sr. Manoel d’Almeida as 7 horas da manhã. Não encontramos um único ser Vicente em 4 casas cobertas de telha e outras de palha.

_____ que estes filhos do povo andem qual aves d’arribação à procura de hospitalidade, já que em seo berço são despresados e abandonados como uns párias.

Terão eles por ventura culpa do reverso da sorte?! Não há direito na Constituição para amparal-o em tempos tão calamitosos?! (MANOEL GOUVEIA, apud A CIDADE, 1901, Nº9, Pág. 2).

III

IMPRESSÕES DE VIAGEM À VIÇOSA: A CHEGADA TRIUNFAL E A HOSPITALIDADE SERTANEJA

Ás 8/2 passavamos pelo povoado Tubarão que dista 2 kilometros da primeira ascenção; da ladeira que a subimos com grande receio de cambalhotas, motivado por alguns pedaços de barro vermelho, que molhados escorregavam como sabão; fasendo o animal poderoso esforço para equilibra-se e subir.

O noivo moço tão bom conservava-se sempre a grande distancia. Eu suppuz que esta separação era motivada pela approximação da noiva e as fortes emoções paralysavam completamente a andadura do seu fino cavallo preto.

Fui o porta-bandeira da comitiva na assentada da Serra; sahindo-o ao encontro dois jovens que conheci ser um filho do Sr. coronel Joaquim Carvalho, com os quaes troquei uma ligeira saudação.

No cajueiro de saudosa memoria e no qual o brioso e hospitaleiro povo Viçozense costuma faser o “bota-fóra” o Adeus, a recepção, etc.

Foi alli que saudei os distinctos cavalheiros: coroneis Antonio Rodrigues Carneiro, Salustiano de Pinho, João Benicio Fontenelle, Dr. Claudio E. Carneiro Leal Filho, Dr. Alberto Magno da Rocha, Antonio Honorio Passos, Francisco Felix de Paula, Angelo Passos, Adolpho Silveira, Aurelio Silveira, José Evaristo Mapurunga, e muitos outros cavalheiros que conheci-os simplesmente de coração.

Todos com a maior cortesia e affabilidade saudaram os viajantes, offerecendo a cada um de per si sua cordial hospitalidade.

O meu cavallo alasão, soffrego e inquieto pela mutuca (mosca) tornou-se impaciente fasendo-me cahir em grave falta de ganhar  a dianteira —- a fui regulando até chegarmos á entrada da cidade. Que enthusiasta panorama offerece a naturesa ao viajante sertanejo, que admira sua procreação na entrada da cidade de Viçosa?! Aquelles sitios bem cuidados, com cercado natural e verdejante, extasiam como ______ da terra de _______!! (A CIDADE/CE, 1901, Nº 10, Pág. 3).

IV

CRÔNICAS DE UM CASAMENTO EM VIÇOSA: SOCIEDADE, DISCURSOS E TRADIÇÃO

Ha uma hora da tarde a escolhida sociedade viçozense achava-se reunida em casa do coronel Carneiro, seguindo a occupar lugar em sua apparatosa meza que comportava uns 30 talheres.

Raras vezes tenho assistido a festas de casamento tão familiares e tão bem destribuída em confotable e bôa regularidade, como a do meu particular amigo José Antonio d’Oliveira!

Foi n’esta esplendida festa que tive a ventura de conhecer o Sr. Souza, um cavalheiro disttincto e commedido na acepção da palavra e que no papel de convidado disvellava se em servir aos convivas.

Depois de preenchidas as formalidades, da refeição e bebidas, levantou-se imponente, como aspecto magestoso e solemne o Sr. coronel Alfredo Lamartine pedindo a palavra aos Exmos. senhores e senhoras…

Só a penna diamantina e vibrante de um Ruy Barbosa ou de um tribuno como Fausto Cardoso, verdadeiras glorias nacionaes, podiam expor ao vivo os bellos predicados e dons intellectuaes d’este valente campeão da educação moderna!

Alfredo Lamartine fanatisou com uma significativa allocução, os circunstantes que firmavam o encantados com sua verbosidade espontanea donde sahiam phrases eloquentes de saudação aos noivos.

Não é uma apreciação banal  minha, não!

Quem tiver de ouvil-o e de apreciar os seus arrojados discursos publicados, estará do meu ldo.

Em seguida tomou a palavra o Sr. Dr. Alberto que prolongou o seu discurso por espaço de meia hora. No arrojo da loquaradde de suas palavras o Dr. Alberto chegou à sensibilidade da noiva e da Exma. família Carneiro.

__________ so vinho, foi que notei uma falta condemnavel de minha parte: exigir a presença do noivo já que a da noiva podia representada por suas Exma. familia.

O noivo apresentou-se, e, tomando eu a palavra brindei-o, expondo a todos os circunstantes os bellos predicados deste mancebo que a 10 annos conheço os de muito perto.

Trocaram-se mais alguns brindes e deixamos lugar para a 3. meza, a qual não assisti. Eram 3 horas da tarde. Recolhi-me seguido de meus companheiros de hospedagem, afim de fasermos digestão e haver tempo de mudarmos de “toilette” para as cerimonias do casamento civil e religioso.

As 5/2 teve logar a cerimonia civil que foi executada com todas as formalidades da lei, pelo integro juiz Alberto  Xagno da Rocha, com a assistencia da selectiva sociedade viçozense. 

Findo o acto abriram os noivos por entre os convidados uma avenida encantadora, que foi imitada pelos numerosos convivas formando ala até a Matriz onde o revmo. parocho Bevilaqua abençou-nos com os estigmas de nossa religião catholica.

De volta fomos recebidos com o espumante champagne e cerveja bebidos á saude dos noivos.

A discussão animou-se com as generosas bebidas e os rapazes que não queriam as pernas para curtir, exigiram dansar.” (MANOEL GOUVEIA apud A CIDADE/CE, 1901, Nº 12, Pág. 2).

V

MEMÓRIAS DE UMA FESTA DE ESPLENDOR: MÚSICA, POESIA E DANÇA NA VIÇOSA DE 1901:

Foi o Sr. Mapurunga encarregado de contractar o charanga Viçozense que apresentou-se as 8 horas. Antes que a banda musical chegasse; apresentou-se no salão de honra a Exma. Sra. Professora Publica, Angela da Rocha Freire, seguida de algumas de suas mimosas discipulas, que extasiaram os espectadores recitando bellos sonetos acompanhados pelo violão do Sr. J. Moreno.

E’ digno de applaudir-se o progresso destas creanças que sensibilizaram os ouvintes com sua voz expressiva accentuando com sua voz expressiva accentuando as palavras com todos os ademanes. Conheci no formoso grupo duas encantadoras meninas do coronel J. Candido, netas do coronel Carneiro, que recitaram admiravelmente, chamando á attenção o espectador, não só pelo pequeno vulto, como pela grande desenvoltura, pois apenas contam 6 e 8 annos.

Foi uma festa muito apropriada e digna de todos os applausos, os recitativos que ainda hoje está gravada na minha memoria. Immediatamente apparece a charanga que executou uma polka e que todos dansavam com praser.

Na revolutear da valsa; quem não dansava, revoltueava com o champagne, cerveja e chá, para terem alguma occupação.

So es digo que fui um grandissimo asno emm não imitar estes felisardos da eschola de Baccho e de Lucullo, porque afinal de contas as meninas pouca conta fasem de um papel queimado. O enthusiasmo dos felisardos veio interromper nossa quadrilha com discursos, etc.

A charanga não __________ senão emmudecer. 

Logo que soube o motivo porque não tocavam, apressei-me para apreciar as eloquencias superabundantes do Sr. Adolpho Silveira, porem foi me vedada  entrada pelo amontoado do povo, que não cedia logar a ninguem.

Pela gesticulação, fallaram para mim, o Sr. Dr. Alberto e Dr. Claudio, o que penlisou-me não apanhar o som mavioso de su dulcissima voz. Terminamos afinal a quadrilha q’ foi substiuida por valsas polkas e schottisck.

Nesta festa sublime nada occorreu de desagradavel e sei de convicção que agradou geralmente a todos. As 11 horas apressamo-nos a seguir os noivos até seu formoso ninho, que achava-se armado com toda a pompa na casa immediata  do coronel Carneiro e apenas separada por uma parêde.

Vamos entrar em novos capitulos que vão ser preenchidos com mais 2 dias de demora na boa cidade e nosso egresso  Granja. (MANOEL OUVEIA apud A CIDADE/CE, 1901, Nº 13, Pág. 3).

VI

VIÇOSA EM 1901: ENRE A HOSPITALIDADERURAL E O DRAMA DA SECA

Não posso ir á Viçoza sem visitar o Carêta propriedade do bom amigo Coronel Candido Magalhães, que dista da cidade uns 5 kilometros. De passagem encontra-se o formoso “Chalet” do amigo José Joaquim de Carvalho, construido em terreno elevado no sitio “Commum” tambem de sua propriedade, e do qual descobre-se uma vista pittoresca que deslumbra o visitante.

O sitio “Commum” fica pouco mais ou menos situado a 2 kilometros da Cidade, para o Sul.

Seriam 9 horas da manhã quando passamos por elle em direcção ao Carêta no intuito de tomarmos um respeitavel banho.

José Carvalho e José Ildefonso estavam receiosos de montar para não aggravar o “etc e tal”.

Accompanharam-me J Moreno, Antonio Carneiro Filho e José Mapurunga, que seguia com sua Senhora, para o seu sitio.

A presença do Coronel Candido Magalhães e sua cordial recepção, encantou o Sr. Moreno que ainda não conhecia-o. Levamos uma garrafa, de “briba” e fomos para o açude ao respeitavel banho. De volta o Coronel Candido, na forma do costume, recebeu-nos com uma chicara de cafe, afim de não constiparmos da agua.

Tomando o cafe, enfreamos os nossos cavallos para voltar a Cidade, restando-nos daquelle agradabelissimo passeio as mais gratas recordaçoes. Ao passar pelo “Commum” fômos ao castello do amigo José Joaquim de Carvalho, o qual acolheu-nos cavalheirosamente, offerecendo-nos um calix de licor de cajá que o amigo Moreno sorveu com todo o enthusiasmo. Para complemento, o amigo “Zeca” presenteou-nos com uma grrafa do esplendido licor de sua composição a qual foi conduzida pelo Sr. Carneiro Filho.

O banho havia excitado de tal forma o appetite que incorremos em grave falta de indigestão. O amigo Moreno deu a entender que nunca comêra em sua vida -, e, não só comia como estimulava os companheiros a comer.

A culpa sempre pendia para o meu compadre Carvalho, que na qualidade de “bonne personne”, fasta por accompanhar a moda. pelas 5 horas da tarde assisti ao carnaval, notando muito decoro e bom gosto. Não posso fazer uma descripção analoga da festa carnavalesca em Viçosa. Ella possue pennas talentosas que estão ao contacto da festa e que melhor podem noticiar. Apenas darei que as figuras estavão mascaradas com genio artistico. A essa mesma hora recolhi-me a rede de dormir prostado pela febre.

segunda-feira (18) sahi com J. Moreno e José Carvalho a percorrer a cidade, movendo nos a attenção a estatua do General Tiburcio, na praça do mesmo nome. Admiramos o elo daquelle monumento que recorda uma gloria para os filhos de Viçoza.

Seguimos até o mercado publico à procura de fructas para formar uma carga que occupasse um animal desocupado.

Nada absolutamente encontramos. Nunca conheci a Viçoza tão pobre de fructas. Do mercado caminhamos em direcção ao matadouro que fica situado em uma alta esplendido para o norte da cidade.

Vê-se  neste bairro, de um e outro lado, casebres de pobre, apparencia, nas quaes nota-se a miseria, terriveis consequencias da secca.

Meus companheiros admiravam a côr pallida e macillenta destes pobres infelizes em um clima excepcional de bom!

Em frente as cazas dos Srs. Fontenelle e Pinho, viamos diariamente um grande numero destes infelises de ambos os sexos e de todas as idades, que vinham ali com o fim de mitigarem a fome!

Era uma carpideira infernal a daquellas creanças esqueleticas! Estes miseraveis devem tudo a estas duas cazas humanitarias. (MANOEL GOUVEIA apud A REPUBLICA/CE, 1901, Nº 15, Pág. 6).

VII

VIÇOSA EM 1901: MEMÓRIAS DE UM PASSEIO E RETRATOS DE UMA CIDADE

Não posso ir à Viçoza sem visitar o Carêta propriedade do bom amigo Coronel Cândido Magalhães, que dista da cidade uns 5 kilometros.

De passagem encontra-se o formoso “Chalet” do amigo José Joaquim de Carvalho, construído em terreno elevado no sitio “Commum”. Também de sua propriedade e do qual descobre-se uma vista pitoresca que deslumbra o visitante.

O sítio “Commum” fica pouco mais ou menos situado a 2 kilometros da Cidade, para o Sul.

Seriam 9 horas da manhã quando passamos por elle em direcção ao Carêta no intuito de tomarmos um respeitavel banho.

José Carvalho e José Ildefonso estavam receiosos de montar para não aggravar o “etc e tal”.

Accompanharam-me J. Moreno Antonio Carneiro Filho e José Mapurunga, que seguia com sua Senhora, para o seu sitio.

A presença do Coronel Candido Magalhães e sua cordial  recepção, encantou o Sr. Moreno que ainda não conhecia-o. Levamos uma garrafa, de “briba” e fomos para o açude ao respeitável banho. De volta o Coronel Candido, na forma do costume, recebeu-nos com uma chicara de café, afim de não constiparmos da água.

Tomado o café, enfreamos os nossos cavalos para voltar a Cidade, restando-nos daquelle agradabellissimo passeio as mais gratas recordações.

Ao passar pelo “Commum” fômos ao castello do amigo José Joaquim de Carvalho, o qual acolheu-nos cavalheirosamente, offerecendo-nos um calix de licor de caja que o amigo Moreno sorveu com todo o enthusiasmo. 

Para complemento, o amigo “Zeca” , presenteou-nos com uma garrafa do esplendido licor de sua composição a qual foi conduzida pelo Sr. Carneiro Filho.

O banho havia excitado de tal forma o appetite que incorremos em grave falta de indigestão. O amigo Moreno deu a entender que nunca comêra em sua vida – e, não só comia como estimulava os companheiros a comer.

A culpa sempre pendia para o meu compadre Carvalho, que na qualidade de “bonne personne” fasia por accompanhar a moda. Pelas 5 horas da tarde assisti ao carnaval, notando muito decoro e bom gosto. Não posso fazer uma descripção analoga da festa carnavalesca em Viçosa. Ella possue pennas talentosas que estão ao contacto da festa e que melhor podem noticiar. Apenas direi que as figuras estava mascaradas com genio artistico. A essa mesma hora recolhi-me a rede de dormir prostado pela febre.

Segunda-feira (18) sahi com J. Moreno e José Carvalho a percorrer a cidade, movendo nos a attenção a estatua do General Tiburcio, na praça do mesmo nome. Admiramos o elo daquelle monumento que recorda uma gloria para os filhos de Viçoza.

Seguimos até o mercado publico á procura de fructas para formar uma carga que occupasse um animal desocupado.

Nada absolutamente encontramos. Nunca conheci a Viçoza tão pobre de fructas. Do mercado caminhamos em direcção ao matadouro que fica situado em um alto esplendido para o norte da cidade.

Vê-se neste bairro, de um e outro lado, casebres de pobre apparencia nas quaes nota-se a miseria, terriveis consequencias da secca.

Meus companheiros admiravam a côr pallida e mascilenta destes pobres infelizes em um clima excepcional de bom!

Em frente ás cazas dos Srs. Fontenelle e Pinho, viamos diariamente um grande numero destes infelises de ambos os sexos e de todas as idades, que vinham ali com o fim de mitigarem a fome!

Era uma carpideira infernal a daquellas creanças esqueleticas! Estes miseraveis devem tudo a estas duas cazas humanitarias! (MANOEL GOUVEIA apud A CIDADE, 1901, Nº 12, Pág. 2).

VIII

UMA NOITE DE HOSPITALIDAE E FESTAS EM VIÇOSA

O nosso amigo Adonias convidara-nos par à noite tomarmos uma chavena de chá em casa de seu sogro, Coronel José Joaquim Fontenelle, que acceitamos com todo o praser.

Fomos gratamente recebidos e obsequiados pela Exma. familia do Coronel Fontenelle que possuem os bellos predicados de uma bôa educação. Honraram-nos com uma esplendida e bem servida mesa.

Entrei de bôa vontade no chocolate, pudins e queijo apesar de não sentir-me bem dispôsto e provocado pela febre.

Mal haviamos abandonado a mesa, apresenta-se uma commissão de cinco distinctos cidadãos á procura dos forasteiros; – e convidou-nos para um sarau em casa do Coronel Domingos Severiano.

Apezar de haver urgente necessidade de viajarmos no dia seguinte pela manhã e com as malas de roupa em perspectiva de viagem; fomos obrigados a acceder a tão honroso convite. Quem sallientou-se foi o compadre Carvalho que devido as grandes sympathias que adquiriu pela primeira vez, em sua visita a Viçoza, deram motivo a esta festa toda significativa de estima, etc.

J. Moreno não assistiu porque estava indisposto.

Quando apresentamos-nos no salão já á mocidade havia exercitado com algumas “figuradas” e pareceu-me que tardavamos para funccionar a quadrilha. No salão bastante arejado, aspirava-se um ambiente purissimo entre as deidades Viçozenses, cada qual com sua roza viçosa ao peito.

Emquanto valsavamos as senhoritas Bem-Bem Carneiro e Matutina Oliveira, atiravam-nos uma chuva de confettis, que eram recebidos com todo o praser.

Em todos os rostos notava-se a mais expressiva animação prova evidente de que a festa corria a contento de todos. Depois de dansar algumas “figuradas” e uma quadrilha, tive que pedir desculpa para retirar-me, ficando o meu compadre até afinal, que prolongou-se por 2 horas da manhã. Contou-me que o baile tinha excedido á sua expetativa, pois apenas fasiam uns 5 annos que não dansava. (A CIDADE/CE, 1901, Nº 16, Pág. 7).

IX

PELOS CAMINHOS DE TUBARÃO À TAQUARA: AVENTURAS DE SELA E TEMPESTADE

O dia 19 despontou envolvendo o astro rei em uma capa opaca que não transcendia um pequeno resquicio de seus fulgurosos raios.

Haviamos marcado a viagem para as 5 da manhã e decorriam 7 sem uma resolução deffinitiva.

Parece que um forte magnete attrahiamos difficultando os aprestos de viagem.

Serviu-nos de muito um rasgo energico do amigo Raymundo Oliveira para decidir a volta as 8 horas.

Fomos honrados com a companhia do Coronel Antonio Rodrigues Carneiro até ao tope da ladeira e foi exactamente ali que damos o abraço de despedida a este distincto cavalheiro e amigo.

Na descensão tomavamos de modo continuo um enorme choque, pela fraça firmesa das partes do animal que procurava atirar-nos de ventas no chão.

O unico remedio foi moderar estes choques com a celebre briba que sensibilisou o sangue embora ella procurasse subir á cabeça.

As 91/2 chegamos ao Tubarão em casa da Srª D. Xica com uma fome medonha que fasia encolher os intestinos. O nosso amigo Raymundo Oliveira que em viagens “está lido e corrido”, conduzia em sua carona um enorme lombo de carne com farinha, que dava comida a um pequeno baluarte. Peâmos os animaes no páteo para omerem alguma cousa emquanto nós fasiamos o mesmo trabalho, com o lombo de carne e café.

Fóra a modestia quem comeu menos foi a dona da casa, porque o amigo Moreno só deixou a toalha e pratos.

Para adiantarmos a viagem, concordamos em montar e botar os animaes a passo afim de não prejudicar a digestão.

De repente armaram-se  em frente pesadas nuvens annunciando tempestade e o amigo Raymundo Oliveira que de forma alguma queria molhar-se; pregou as esporas ao cavallo, que partiu a todo galope. Imitando-o chegamos a uma casa que ficava a um lado da estrada, afim de abrigarmos-nos da chuva que parecia vir muito perto.

O morador como entendido, disse-nos: Vamcés podem ir seu caminho que aquella não alcança Vancês. Com tal affirmativa seguimos affoitos caminho de Taquara. Perto do Arapuhá apanhou-nos uma catadupa d’água que fez dos caminhos um lago. O unico recurso era lançarmos mão de briba para aquecer a epiderme que estava de todo gelada.

A colossal chuva favoreceu-nos, porque tinhamos de passar pelo desgosto de não encontrar em casa o Sr. Bonifácio, que com o seu pessoal trabalhador estava elaborando no seu roçado. Passamos por elle um kilometro de sua casa. Vinha todo arregaçado supportando o enorme peso d’agua que desprendia-se das nuvens.

Os nossos cavallos animados pelas esporas corriam veloses pela encharcada do caminho; que atiravam agua e 5 metros de distancia. Graças á famosa briba supportamos toda esta travessia sem q’ sentissimos o mais leve incommodo. Ha uma da tarde apeavamos-nos no alpendre da casa do Sr. Bonifacio com toda a diplomacia e pintos nuellos. (MANOEL GOUVEIA apud A CIDADE, 1901, Nº 16, Pág. 2).

CONCLUSÃO

UMA VIAGEM DE CONTRATEMPOS E ESPERANÇAS

O mal nunca vem só. Este provérbio é muito acertado principalmente para quem está com a ferida aberta. O compadre queixava-se da pedra de diamante, cuja perda lamentava por ter sido um presente de uma pessôa estremecida e um objecto que ha muitos annos possuía. Hoje folgo de saber que essa preciosa joia foi encontrada pelo Sr. Bonifacio, da qual já apossou-se. Como dizia.

O cavallo havia cançado de tal forma, a ponto de mover-se a troco de muito chicote. Imaginem caros leitores o estado do meu compadre vendo-se a pé!

O amigo Raymundo Oliveira, commovido por esta desventura, disse para mim o J. Moreno: “Vocês que estão bem montados puxem o que pudér até encontrarem uma casa ou um portador, de quem aluguem um cavallo em nosso soccorro.”

Dito e feito. Deixamos os dois companheiros, fazendo  promessa a pé, e, damos toda a velocidade aos cavallos afim de prestarmos a tempo  prompto soccorro. Admiramos a collossal chuva do dia anterior, pois os regatos e riachos estavam em toda a extensão e com uma correnteza medonha.

Chegamos em breve a “Ipueiras” a primeira casa em que encontra-se na estrada do “Capim”.

Batemos palmas, saindo uma jovem de quem tomamos as informações necessarias. Disse-nos que na fazenda não havia animaes e que os unicos que escaparam andavam prestando serviço no campo.

Perguntamos se havia algum morador que nos obtivesse um animal fosse porque preço fosse, fim de ir em socorro de dois companheiros. Responde-nos que o unico morador ali era seu tio “Caboclo” um pouco mais adiante.

Ainda pedimos par vender-nos uma gallinha e preparar um almoço que Raymundo Oliveira e José Carvalho, vinham com fome de cégo.

Pagavamos muito bem. Responde-nos, que ali nada se arranjava porque não havia de que faser comida. Prosseguimos para a casa do tio “Caboclo” na esperança de salvarmos os companheiros.

O tio “Caboclo” tambem andava campeando. Que fatalidade, meu Deus! Deixamos o conviniente recado a uma espirituosa creança, para quando seu pae chegasse. Ordenando de não esquecer o almoço. Julgamos ter desempenhado nessa commissão da melhor forma.

O sol cainhava para o pino do meio-dia, portanto não estavamos para maior penitencia.

O nosso fanal era descobrir o cemiterio com as suas casinhas brancas, cruses e inscripções.

Passamos em frente a elle ás 12 1/2 rogando a Deus pelo eterno descanso daquellas almas que desappareceram para sempre da terra. Que indisivel alegria sentimos quando descortinamos a Cidade com seu aspecto meio secular, sabendo que em breve iamos ser rodeados de pessoas queridas?!

Comemos com satisfação ás 2 horas depois que descansamos as fadigas de uma viagem cheia de peripecias. As 5 da tarde appareceu-me o compadre Carvalho que já havia jantado com o amigo Raymundo Oliveira. Veiu dando graças a Deus de ter encontrado um comboeiro com uma carga de jacas, que comprou as com as condicções de passar a carga e cangalha para o seu cavallo cansado.

Carlos leitores tenho por demais abusado de vossa benevolencia, com a minha discripção em linguagem acanhada, com tudo digo-vos que não fui a festa no proposito de escrever. O que fiz – fiz de memoria concatenando os principaes acontecimentos.

Granja, 1 de abril de 1901 (MANOEL GOUVEIA apud A CIDADE/CE, 1901, Nº 18, Pág. 2).

DE SOBRAL A YBIAPABA

 I

DE SOBRAL A YBIAPABA – IMPRESSÕES DE VIAGEM:

1 de Setembro.

O relógio da cathedral annunciára 10 da manhã. Céo lvo, irreprehensivel; fasia calor de rachar; Aguardavamos na gare da Estação o comboyo que vinha do Ipú e que nos havia de conduzir á cidade de Granja.

Sem demora a sineta avisava a proximidade do trem. O Fiusa, porem, já se massava.

Anciosos olhavamos a locomotiva ao longe como um ponto negro a avlumar-se a pouco e pouco.

Já sentimos as fortes vibrações do silvar do trem de ferro e o cheiro particular que os vapores fumegantes deixão na athemosphéra.

Pára o comboyo, suado, empoeirado, arquejante da travessia; dir-se-ia que aquelle monstro de ferro – a locomotiva – sentia tambem as ardencias estivaes; vinha cançada, fatigada, esbaforida.

Movimenta-se a gare; passageiros que saltão, passageiros que seguem, bagagens que se retira, bagagens que se embarca; correspondencia que se destribue ou que se envia; cartas, jornaes, encommendas, embrulhos, pacotes; palestras aqui e ali; abraços de chegada, comprimentos; accenos de lenço dos que se vão, tudo rapido como um sonho bom e, apezar de commum e diario, não deixa sempre de impressionar profunda e agradavelmente.

Partira o trem depois de uma demora de 15 minutos; a cidade com a sua casaria caiada, com os seus templos cujas torres parecião embeber-se no azul sumia-se a pouco e pouco até afundar-se na distancia, e em nossa alma ficava – da partida, da cidade, da familia, do lar, do coração que deixamos em estremecimentos de ciumes e d’alma que deixamos imdeliquios de amores, ficava uma impressão grave e saudosa.

Ao bulicio da nossa bella terrinha succedera o esfusiar do vento pelo descampado a fôra, como uma triste lamentação sobre a natureza languescente quasi muribunda; não havia folhagens de arvores onde cantassem as brisas do sertão; nem uma asa cortava o azul sereno e vasto, vibrando ao vento e ao sol abrazador.

E mais e mais nossa alma entristecia. Eramos dez. Occupvamos um wagon de primeira classe. 

Ao silencio que reinava a principio, como si todos sentissem a um só tempo as tristuras impressionantes da primeira hora, o Fiusa – o banqueiro esbelto de porte, bigode preto bem tratado, voz argentina e olhar brejeiro, rompera a primeira nota alegre da viagem; em interessante colloquio com o Braz Leite foi pedindo à memória a verba guardada não em notas de banco, mas em anedoctas chistosas, capazes de fazer estourar em gargalhadas perennes ao mais grave dos christãos. 

Ainda bem. A’ esquerda a serra da Meruoca estendia-se parallela á linha ferrea, com os seus picos aguçados, quebrando a morotonia da linha horisontal; o sol ardente de uma secca sem igual no Estado, roubara ja os tons verdes á vegetação que languescia sem seiva, quasi sem vida. A’ direita o sertão raso, semeado de arvores esqueleticas, sem uma folha se quer, açoitadas pela ventania abrasadoura, com a galharia erguida para o azul n’uma supplica de braços descarnados, implorando clemencia à Imnensidade. 

Profundamente impressionado com este quadro desolador da nossa natureza, eu de quando em vez convidava a um dos companheiros de viagem à observação, á contemplação deste espectaculo verdadeiramente commovedor. E todos nós – o Fiusa, o tenente-coronel Barbosa, José Amaral, Raymundo Lima, Braz Leite, Gutenberg, Parente, Alvaro Ottoni, o major Plaaido Fontenelle e a Exma. família, o Adonias – o noivo que nos arrastava ao seu consorcio com uma Iracema gentil, nascida lá para as bandas da serra onde nasceu Poty, todos nós refletiamos n’alma uma nesga dessa paysagem agonisante, dolorida.

As 10 horas e 40 minutos chegavamos a Massapê, formosa e risonha villa sertaneja ao pé da serra da Meruoca.

Ali tivemos que demorar um quarto de hora; o comboyo aguardava a passagem do trem-mixto que vinha de Camocim para Sobral. 

Neste breve espaço de tempo podemos visitar o mercado e percorrer a villasinha.

Apear da terrivel crise que travessamos nota-se ali uma certa vida, denunciando prosperidade.

As casas espassas imprimem um tom particular e original a villa de Massapê.

Ao aviso da locomotiva voltamos apressadamente á Estação, em forma de chalet suisso como são quasi todas as estações da Estrada de Ferro de Sobral.

Para felicidade do momentp em uma casinha fronteira á Estação attrahiu-nos a gargalhada argentina d gentil N. – a sobralense formosa, esbelta como a palmeira da serraria e morena como as tardes do Equador.

Deliciosos, inolvidaveis os instantes que passamos junto a morenita. Dezesseis primavéras senastrão na sua aureola de virgem. 

Vestia um casaco de gase deixando transparecer a frescura da pelle assetinada e rosea. Dir-se-ia um astro n’aquell nesga do céo, irradiando atravez de um trampo de nuvem esgarçado e branco. D’ahi em diante o Braz Leite tirou do annular para o bolso a alliança de seu noivado.

“Chair de la femmel argile idealel! ó mervelle! (RUYBLEU apud A CIDADE/CE, 1900, Nº 55, Pág. 2).

II

1. de Setembro.

As 11 horas da manhã a locomotiva silvando pelos sertões a fóra arrastava o comboyo, moroso como um carro puxado a bois.

Estavamos massados com as demoras longas; já alguns companheiros adormecião reclinados ao banco do wagon, aos ditos chistosos do Braz Leite e do Fiusa, outros lião silenciosamente “A Cidade”.

Haviamos cerrado as portinholas do carro devido á nuvem de pó que envolvia o trem; e então o calor tornara-se de produzir insolações. Acusto respiravamos.

Consolavamos a esperança de que em breve sorveriamos o halito perfumado das brisas da Ibyapaba.

Momentos depois, não se ouvia mais o BrazLeite, e o Fiusa como qe esgotando a verve, o repertorio alegre, silenciára tambem.

De quando em quando, porem o bom do Braz soltava um prolongado suspiro que não se podia mesmo avaliar se seria a procura do ar para o pulmão n’aquella athmosphéra de fornalha, ou si – o que é mais provavel – uma ancia angustiada de sua alma em extasis diante da imagem da morenita formosa, que elle havia pouco, retratara na mente, reflictira no coração.

Chegamos afinal a Estação de Pitombeiras – a segunda da via-ferrea de Sobral para de Sobral para quem parte desta cidade em direcção ao Camocim.

Consultando o chronometro marcava elle 1/15.

Nem um só passageiro para embarcar. Sem vida, sem movimento de ordem alguma, se erguia ali a pequenita Estação na planura monotona e sem rumores de um sertão esteril e faiscante aos ardores solares.

E a pezar da falta de carga a embarcar ou a desembarcar do nenhum serviço a fazer pelo encarregado da Estação, tivemos uma demora relativamente longa.

De Massapê até aqui a Estrada atravessa uma ona completamente esteril: terrenos apropriados á criação de gado nos annos regulares.

Soffriamos já muita sêde; mas entre esta e uma pouca d’agua marrenta e morna que nos foi offerecida, preferimos supportar a primeira, a ingerir a segunda; alentavamos a esperança de encontrarmos mais fresca e de melhor qualidade  na Estação do Riachão que já ficava próxima. E seguimos.

O trem se arrástava pesadamente. Silenciávamos todos esperimentando esse aborrecimento, esse tédio que o grande calor em nós produz, maxime, quando somos obrigados a supportal-o horas e horas presos a um wagon de trem moroso e pesado a percorrer uma zona chata e calcinada pelos fogos do estio e a demorar-se longamente em aradas e Estações sem movimento e sem vida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A SUBIDA DA IBIAPABA – PERO COELHO E SUA TROPA

Este desenho é um estudo, para um quadro feito aa óleo sobre tela medindo 100 cm x 160 cm que encontra-se na Secretaria de Cultura de Fortaleza.

Pero Coelho de Sousa foi um explorador português da capitania do Ceará do início do século XVII. Arregimentou soldados e índios para ir conquistar o Maranhão num trajeto passando por mar até o Ceará e, dali, indo por terra, passando pela Serra de Ibiapaba, não indo além, tendo em vista os confrontos violentos com os índios tabajaras liderados por morubixaba (cacique), Irapuã (Mel Redondo). Nesse confronto saíram como vencedores os tabajaras.

REPOUSO NA BARRA – TROPA DE PERO COELHO

Este desenho é um estudo do quadro feito a óleo sobre tela medindo 100 cm x 160 cm, o qual encontra-se na Secretaria de Cultura de Fortaleza. Este desenho representa o repouso de Pero Coelho com sua tropa na desembocadura do rio Sia-ra, hoje conhecido como Barra do Ceará, na cidade de Fortaleza. Todos encontram-se feridos, exaustos e famintos quando sofreram a segunda derrota e  expulsão efetuada pelos franceses em conluio com os tabajaras. Note-se que este desenho estão  esposa e os filhos de Pero Coelho.

O AMANAIARA

Quadro “O Amanaiara” (70 cm x 85 cm)

O Padre Figueira seria o segundo padre a ser morto ritualisticamente pelos índios tabajaras. Há meses que não chovia. A sede já e fazia presente na localidade. Os índios antes de matar Figueira, resolveram propor  ao reverendo o seguinte: Caso o mesmo o assegurasse que na manhã seguinte cairia chuva, então eles não o matariam.

Caso contrário, se não ocorresse a a chuva, o reverendo seria morto. O Padre então afirmou que iria chover, com certeza. No outro dia choveu bastante.

A partir daí, os índios passaram a chamar o Pe. Figueira de “Amanaiara” que significa o Senhor que trás a chuva. Depois de muito tempo, com a idade avançada, Amanaiara morreu. Então, sempre durante os períodos difíceis da estiagem, os índios realizavam procissões ritualistas pedindo chuva aos céus, levando objetos (botas, batinas, chapéus, bengalas e até restos mortais) que pertenciam ao velho padre, pensando assim que o espírito de Amanaiara pudesse trazer a chuva.

PADRE VIEIRA A CAMINHO DE VIÇOSA DO CEARÁ

Quadro”Padre Vieira a caminho de Viçosa do Ceará” (86 cm x 53 cm).

“Todo quadro tem uma coloração um tanto douradora sugerindo o sol do meio-dia numa atmosfera úmida.

O ambiente selvagem parece exalar o aroma adocicado do precioso inverno. Nas margens do rio Pirangi, que correr cheio, as canoas encalham para o desembarque dos missionários.

A brisa desce da serra para recepcionar  as venerandas figuras religiosas e os índios colaboradores já evangelizados. Todos parecem concentrados em uníssonos no espírito da fé.

No centro do quadro vem a figura mística e sábia do padre Antônio Vieira, o qual com a mão direita, segura com firmeza o símbolo máximo da cristandade, a Cruz, que está construído no esilo barroco.

A mão esquerda ampara com delicadeza a cabaça com água para saciar a sede em longa caminhada, bem como a sede da fé e justiça. Em seu corpo, vem pendurado a tiracolo um saco contendo, provavelmente pertences pessoais.

Do lado direito, também a tiracolo, vem a sua bolsa de couro contendo seus escritos, livros e a Bíblia, o missal e outras peças litúrgicas. 

Nivelando ao costume dos índios, Vieira caminha descalço para sentir a espiritualidade do chão e o abraço da terra. O semblante expressa sabedoria e o fervor da paz.

RETRATO ICONOGRÁFICO DO PE. ANTÔNIO VIEIRA – O SACRO

 

Padre Antônio Vieira viveu no apogeu da época barroca, quando ainda não existia a fotografia. Portanto, todas as imagens atribuídas a Vieira são criações artísticas idealizadas esteticamente baseadas no seu caráter e talento intelectual, bem como sua religiosidade. 

Este atual retrato é mais uma idealização do artista tentando interpretar a personalidade de Padre Vieira (80 cm x 100 cm).

Composição do quadro:

Vieira, em uma cela, ao lado do Crucifixo barroco termina de escrever um Sermão: O olhar manso e profundo parece refletir o conteúdo do escrito que se destina a ensinar e a conscientizar a todos no caminho da paz, da fé e do saber. A mão esquerda segura a lauda com firmeza e a direita parece ter parado subitamente de escrever, pois ainda segura a pena contendo a tinta que foi retirada do tinteiro sobre a escrivaninha. A mão e a pena aponta ostensivamente para a lauda salientando o objetivo maior de Vieira, os Sermões. Do lado direito, ainda sobre a escrivaninha está a inseparável Bíblia.

Referências Bibliográficas:

Descartes Gadelha – Telas a óleo, estudos e textos – Acervo Memorial Pe. Antônio Vieira S.J.

CHEGADA DO CORONEL DR. BEZERRIL FONTENELLE A VIÇOSA MARCA EXCURSÃO PRESIDENCIAL”

“EXCURSÃO PRESIDENCIAL – Hoje ao meio dia chegou à cidade de Viçosa S. Ex.ª o Sr. Coronel Dr. Bezerril Fontenelle.

S. Exª. teve brilhante recepção naquella cidade.

De S. Exª recebemos o seguinte despacho: 

Viçosa, 16.

A’ Redação d’ República.

Chegamos hoje 12 horas. Todos bons Saudações.

Bezerril Fontenelle – Presidente.

EXCURSÃO PRESIDENCIAL AO NORTE: IMPRESSÕES DE UMA JORNADA DE HOSPITALIDADE E PAISAGENS

“EXCURSÃO PRESIDENCIAL AO NORTE DE ESTADO – No dia 14, ao primeiro clarão da manhã, já estavamos de pé a passeiar pelas ruas atapetadas de relva e embalsamadas com o delicioso perfume das flôres dos cafeeiros e de jasmin do cabo. A’s 7 horas e 30 minuto, depois das despedidas aos amigos que nos acompanharam do Ipú e dos nossos excellentes hospedes, partimos acompanhados por varios amigos, que voltaram já de grande distancia.

Depois de transpormos uma boa elevação, embarafustamos por uma estrada sombria e recortada por vários córregos, que irrigam aquelle terreno, trazendo o sempre n’uma verdura primaveril.

Quando em vez a areia branca da estrada estava estrellada de flores das mais brilhantes e variedades de côres, e de espaço em espaço aza de arisca jurity fendia o ar com um prolongado sibillo.

Nas proximidades do riacho Inussú atravessamos um verdadeiro tunel ou berceau de ramagens, tal a densidade daquella imponente vegetação.

Árvores enormes orlam a estrada, deixando pender de seus galhos longas barbas de samambaia, nas quaes a orvalhada na noite se destilla e alimenta em doce frescura as trepadeiras que se enredam e entrelaçam n’uma pujança de seiva, verdura e flôres de todos os matizes.

Pouco adiante, n’uma curva do caminho avistamos grande cavalgada que se dirigia em nosso sentido.

Era composta por grande numero de cavalheiros, que vinham ao encontro de S. Exc. o Sr. presidente, e entre os quaes notamos nossos prestimosos amigos Tiburcio Gonçalves, influencia real e chefe prestimoso no prospero e futuroso S. Benedicto seu distincto irmão Raymundo Gonçalvez, José Francisco Valeriano, Gonçalo Bandeira e muitos outros.

Entre as pessoas que vieram ao nosso encontro, muito nos alegrou achar-se o nosso velho amigo João Bezerril, estimado irmão de S. Exc. o Sr. presidente, o qual de então em diante – junto a nós e aos collegas Belfort e Raymundo Guilherme, completou a “bagagem”, à retaguarda da cavalgada, onde nunca faltou  alegria.

A’s 10 horas e 40 minutos entravamos no risonho e festivo S. Benedicto e fomos correctamente hospedados na residencia do excellente amigo Tiburcio, onde saboreamos um variadissimo almoço, por occasião do qual trocaram-se os seguintes brindes:

De Raymundo Gonçalves a S. Exc. o Sr. presidente;

De S. Exc., ao Tiburcio Gonçalves, como digno representante do povo à assembléa estadoal;

Do coronel Valdemiro Moreira ao Raymundo Gonçalves;

De S. Exc. o S. presidente à familia Memoria, representada pelo D. Francisco Memoria;

De Raymundo Gonçalves ao bello sexo, representado pelas senhoras presentes;

De S. Exc. o Sr. presidente à prosperidade da população de S. Benedicto;

A’ noite teve logar no salão da camara municipal uma soirée, organisada pelos amigos de S. Exc. em regosijo à sua chegada.

O salão estava muito bem ornado illuminado, fazendo honra aos convidados. A soirée correu animadissima e terminou já pela madrugada.

No dia 15 pelas 8 horas da manhã, partimos, summamente penhorados pelas finezas recebidas por parte de toda a Exma. familia dos prestimosos amigos Tiburcio e Raymundo Gonçalves os quaes tiveram ainda bondade de nos acompanhar até Ibiapina.

Com duas horas de viagem fizemos a pequena distancia que separa S. Benedicto de Ibiapina.

Ali fomos mui correctamente hospedados em casa do nosso distincto amigo, coronel Lupércio Antonio Coelho de Albuquerque, onde nos foi servido um opiparo almoço, por occasião do qual nosso amigo Valdemiro Moreira brindou ao coronel Lupercio numa das pessoas de sua familia, visto elle achar-se ausente ha muitos dias de sua residencia.

A’s 3 horas e 30 minutos partimos verdadeiramente gratos às finezas que recebemos por parte da familia do prestimoso amigo, coronel Lupercio.

Já ao por do sol, atravessamos a prospera povoação do Jacaré e só às 8 horas e 30 minutos chegamos à sympathica villa do Tyanguá.

Pernoitámos na residencia do nosso amigo Theophilo Ramos, onde fomos delicadamente obsequiados.

Não esqueceremos jamais a bondade e solicitude do jovem amigo Miguel Muniz Ribeiro, que não perdeu um momento para demonstrar suas selectas qualidades. (A REPUBLICA/ CE, 1894, Nº 267, Pág. 23).

VIÇOSA DE BRUMAS E BRINDES: A CIDADE SERRANA NA ROTA PRESIDENCIAL

No dia 16, às 8 horas partimos e por volta do meio dia attingimos o povoado do Quatyguaba, onde já nos esperava crescido numero de distinctos amigos de Viçosa, aos quaes abraçamos com effusão.

Partimos depois de curta demora e pelas 12 horas em ponto entramos em Viçosa, esta mimosa e aceitada cidade serrana que coroa e remata tudo que ha de mais attrahente e sympathico na Ibiapaba.

A cidade vergava sua toilet de grande gala; foguetes atroavam ao ar e ouvia se as notas triumphaes da Marselheza. 

Lamartine Nogueira

Accedendo ao convite previo do nosso estimavel amigo coronel José Joaquim Fontenelle Sobrinho S. Ex. e toda a comitiva foi hospedada com alta distinção e gentileza em seu bello palacete, excepto nosso precisoso amigo coronel Valdemiro Moreira e sua excellentissima senhora que, tambem accedendo a convite, foram não menos delicadamente hospedados e pelo nosso incansavel e estimado correligionario e amigo, coronel Luiz Januario Lamartine Nogueira.

Tivemos a alegria de abraçar  nossos bons companheiros de viagem, que nos deixaram na Granja e vieram directamente para Viçosa, dr. José Domingues Fontenelle, talentoso e honrado promotor público de Fortaleza, dr. Claudio Leal, illustrado juiz de direito de Viçosa, e capitão José Custódio da Silveira.

A’s duas horas da tarde teve lugar o banquete offerecido a s. exc. e sua comitiva pelo coronel José Joaquim durante o qual trocaram se os seguintes brindes:

De s. exc. o sr. presidente à familia Fontenelle, representada dignamente no seu illustre parente coronel José Joaquim e à viçosa, seu berço natal;

Dr dr. Memoria a s. exc. o sr presidente;

Do dr. José Domingues à prosperidade do Ceará pela nobre escolha do dr. Bizerril para o primeiro cargo do Estado;

Do nosso collega Belfort Teixeira aos drs. Francisco Memoria e José Domingues;

De Júlio Braga á Viçosa representada por s. exc. o sr. presidente;

Do dr. Memoria ao Belfort;

Do dr. José Domingues ao valente Órgão das liberdades cearenses “A Republica” na pessoa de Julio Braga;

Durante todo o banquete executou várias peças de musica uma banda muito bem organisada.

Casarão onde residiu José Fontenele Sobrinho e onde ficou hospedado Marechal Bezerril Fontenele.

O palacete do coronel José Joaquim, onde nos hospedamos, é um vasto edificio de um só andar assebradado com uma fachada de architectura simples e cummum, que se eleva já quasi na crista da “cinta ou assentada” em que está edificada, dominando o horisonte dilatadissimo do sertão.

Normalmente á fachada se. estendem dois longos contrafortes de uns 10 kilometros de extensão, cujas extremidades quasi se tocando formam o encantador valle do Itacolomy.

As duas encostas que vertem para o valle são retalhadas por muitas grotas, formando outras tantas cristas dentadas, affectando as formas de mamelões ou picos arredondados.

É justamente a successão destas cristas que por effeito da perspectiva longinqua, forma perfeita illusão de vagalhões em mar atormentado.

Desde nossa chegada até o dia 23 gosamos das maiores distincções por parte daquelle brioso e esforçado povo. S. exc. foi visitado por toda sua ilustre e numerosa familia e pela totalidade dos habitantes da Viçosa, sem distincção de ideias politicas ou de classes.

E’ que não aformosa filha do mar de pedra ainda se traz intacta a arcasanta dos elevados sentimentos.

Percorremos em agradaveis torneios os arrabaldes pittorescos.

S. Exc. sempre e solicito em materia de cortezia, visitou todos seus parentes que moram pelos arrebaldes. Num de seus passeios aao valle do Itaacolomy o chegar ao terreno da casa  de sua exm. tia D. Candida Fontenelle, esta excellente senhora o recebeu com um nobre enthusiasmo, levantando um viva à republica e ao presidente do Estado.

A estas palavras s. exc. que já estava de pé correspondeu com um expansivo abraço.

Durante todos estes dias gosamos dos mais intimos banquetes e divertimento em casa do nosso hospede, que soube transportar para aquelle recanto longinquo todas as commodidades do bom gosto o mais correcto.

A música  tocava durante o almoço e o jantar e à noite executava contradanças que eram com prazer aproveitadas pelos amadores.

Outros, porem, achavam mais agradaveis os serões do salão térreo, onde por vezes nosso bom amigo capitão Plácido Fontenelle Filho prendia a attenção de todos com suas interessantes narrações que taminavam sempre por pilherias de fino espirito.” (A REPÚBLICA, 1894, Nº 267, Pág. 2).

“No dia 24 os nossos distinctos e prestimosos amigos coronel Luiz Januario Lamartine Nogueira e tenente coronel Alfredo Nogueira tiveram occasião de mais de uma vez provar o seu reconhecido cavalheirismo, offerecendo, nos salões do lindo palacete onde residem um magnifico banquete a s. exc. o sr. presidente.

Tudo quanto a Viçosa tem de mais selecto sem distincção politica, na mais effusiva communhão de pensamento e de idéas, achava-se presente no lindo palacete dos amigos coronel Lamartine e Alfredo, o qual estava um mimo, todo enfeitado de arcadas de palmeiras, bandeiras, bem como um grande quadro allegorico, representando as mais urgentes necessidades da terra.

Êste quadro foi devido a habilidade do pincel de nosso sympathico companheiro de viagem Raymundo Guilherme, sob o assumpto dado pelo promotor da festa.

No primeiro plano uma locomotiva sabia de um tunel, lembrando o privilegio concedido a 24 de novembro de 1890 de accordo com a lei providencial nº 2154; no segundo plano e a direita estava desenhada em perspectiva uma fachada de edificio por baixo da qual se lia: Curso de lettras, projecto apresentado na camara temporaria a 12 de novembro de 1827.

Este mesmo plano até o limite com o terceiro representava o bello valle do Itacolomy, fechado por uma barragem representando uma massa enorme d’agua, e por baixo do mesmo se lia: Estudos feitos no valle do Itacolomy por aviso do ministro da agricultura em 19 de Fevereiro de 1879.

Pelas 7 horas da noite, s. exc. o sr. presidente fez a sua entrada no salão, ao som das notas da Marselhesa e no meio do mais expansivo enthusiasmo por parte de todos.

A’s 8 horas da noite, depois da primeira quadrilha e de algumas walsas dançadas na maior animação, teve lugar o banquete por occasião do qual uma commissão composta do coronel Candido Magalhães, por parte do commercio, e coronel Antonio Rodrigues Carneiro, por parte da industria, veio felicitar a s. exc. pela sua chegada á terra natal e ao mesmo tempo, e em nome do povo da Viçosa, pedir a sua attenção para os melhoramentos de que necessitava aquella cidade.

O nosso intelligente amigo, tenente coronel Alfredo Nogueira, em nome da referida commissão, leu a mensagem pedindo a construcção da Estrada de Ferro de Viçosa, e do grande reservatório do Itacolumy, bem como a creação de uma escola superior de lavoura, industria e lettras.

S. exc. o dr. Bezerril agradeceu a manifestação que lhe fazia o povo da VIÇOSA e prometteu que envidaria todos os seus esforços para que a estrada de ferro, ligando essa cidade ao littoral, fosse em breve uma realidade e acabou dizendo que os dois outros pedidos da mensagem, sendo de competencia da administração federal, a ella cumpria dar decisão a respeito, asseverando que na altura das suas forças havia de trabalhar pelo bem estar da sua cara terra natal.

Muitos brindes foram levantados na occasião, notando-se como mais importante os seguintes:

De Alfredo Nogueira, em nome da Viçosa, ao tenente coronel José Bevilaqua, principal fauctor do melhoramento de que gosavam: – o ramal telegraphico;

Do dr. Memorial ao coronel Lamartine;

Do coronel Valdemiro Moreira aos coroneis Carvalho, Carneiro e Candido Magalhães;

Do dr. Claudio Leal ao Alfredo Nogueira;

De Julio Braga, em nome d’ “A Republica” ao povo a Viçosa.

Do coronel Valdemiro à familia Fontenelle, nas pessoas do capitão José da Cunha e tenente coronel José Raymundo;

De Alfredo Nogueira à magistratura cearense a pessoa do sr. dr. Cláudio;

Do dr. José Domingues ao coronel Valdemiro;

Do dr. Claudio ao dr. José Domingues;

Do dr. Memoria, pela bôa orientação dada aos negocios do Estado, ao exm. sr. presidente dr Bezerril. 

Em outras mezas que seguiram se notamos ainda os seguintes enthusiasticos brindes.

Do dr. José Domingues ao dr. Memoria;

De Alfredo Nogueira á Imprensa cearense na pessoa de Júlio Braga;

Do dr. Memória a Arthur Theophilo;

De Arthur Theophilo á “Republica” nas pessoas de Julio Braga e Belfort;

De Julio Braga à mocidade viçosense nas presenças de Arthur Theophilo, Alfredo Nogueira e João Benício;

Do dr. José Domingues aos capitães José Coelho e João Severiano;

Do dr. Memoria ao coronel José Joaquim;

De Arthur Theophilo ao dr. Memoria e ao Futuro, na pessoa de seu filhinho Archimedes;

Do dr. José Domingues ao coronel Clinio Memoria;

De Arthur Theophilo ao Belfort;

Do dr. Memoria á familia Severiano, representada pelo coronel Raymundo Benicio da Silveira;

De Raymundo Belfort ao Arthur Theophilo;

Do dr. Memoria aos irmãos Pinhos;

Do capitão João Severiano Filho a d. Jovina e Descartes, esposa e filhinho de Julio Braga;

De Julio Braga ao bello sexo;

Do dr. Memoria ao Batalhão de Segurança do Estado, na pessoa do tenente Raymundo Guilherme;

Finalmente o nosso collega Belfort improvisou com o maior enthusiasmo o brinde de honra ao inclyto marechal Floriano Peixoto, que foi muito applaudido.

Dançou-se animadamente até pela madrugada, reinando sempre a maior cordialidade entre os convidados.

O coronel Lamartine e toda sua illustre familia souberam conservar se acima de qualquer elogio, usando da maxima correcçao e amabilidades para com todos.

Dois dias depois, accedendo ao convite previo do nosso amigo coronel Candido Magalhães, logo pela manhã partimos em aprazivel cavalgada até sua importante fazenda que dista pouco da Viçosa.

Casarão pertencente ao Cel Cândido do Espírito Santo Magalhães, localizado no Sítio careta, em Viçosa do Ceará.

Passamos um dia cercados de variadas sortes de divertimentos familiares.

Por occasião do almoço variadissimo trocaram se muitos brindes enthusiasticos e sempre acompanhados de grandes expansões de jubilo e cordialidade.

Cel. Cândido do Espírito Santo Magalhães

Aquelle agradavel dia de campo, naquella ditosa fazenda cercada de verdes cannaviaes opulentos, onde as aguas serenas do çude têm como que scintillações de prata, dispertou nos saudades ao montarmos de novo a cavallo rumo da Viçosa, levando bem funda lembrança dos felizes momentos que nos proporcionou nosso estimavel amigo coronel Cândido Magalhães. (JULIO BRAGA apud A REPÚBLICA, 1894, Nº 269, Pág. 2).

EMBARCA NO VAPOR ORIENTE A HOMENAGEM A UM HERÓI NACIONAL

Molde de gesso da estátua General Antônio Tibúrcio em Viçosa do Ceará.

“GENERAL TIBÚRCIO – Seguiu hontem no vapor “Oriente”, com destino a Viçosa o molde da estatua do General Tiburcio, que serviu para fundir a que se acha erigida nesta capital, na praça que teve o nome d’aquelle grande cearense.

Este molde em gesso foi solicitado à Camara Municipal pel sociedade Avenida do Progresso, composta de moços da Viçosa, a qual pretende erguel-a no centro de um jardim público construído naquella cidade sob o plano de nosso operoso e distincto amigo o Sr. Julio Braga.

A estatua está completamente preparada e bronzeada, tendo a particularidade de ser ainda mais semelhante ao porte do inclyto general do que a estatua fundida.

Parabens aos moços que não perdem occasião de revelar seu amor pelos grandes filhos de sua terra natal.” 9A REPÚBLICA, 1884, Pág. 3).